Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

#todosmeusfilhos

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Assim que Juliana engravidou, ela e seu marido, Daniel, conversaram com a pediatra da futura filha sobre a existência do outro filho deles, esse adotivo. É que o primogênito do casal era muito arteiro e amoroso e, sem querer, brincava de maneira bruta. Coisa de menino. A preocupação deles era tanto a saúde da Luiza, naquele momento ainda dentro da barriga da Juliana, como também o bem-estar emocional do primogênito da família com a chegada da nova bebê. A reação da pediatra?

“Ué, mas ele é irmão mais velho dela!”

A história seria trivial, senão fosse pelo fato de que o primogênito do casal é um buldogue inglês.

Isso mesmo, o Gorducho Ícaro, ou Ducho, como é conhecido pelos mais íntimos, é um filho canino.

Juliana, enfermeira, e Daniel, que trabalha com informática, são membros de um seleto clube que cresce exponencialmente: eles são pais de filhos de quatro patas. É comum que as pessoas de fora encarem esse tipo de vínculo com uma dose de ceticismo e até mesmo julgamento.

“Não é a mesma coisa,” dizem os desavisados.

Muitos até reconhecem esse tipo de relação como algo bonito, mas quase como um estágio para se tornar mãe “de verdade” (leia-se: mãe de um filho humano). Para Juliana e muitas outras mulheres, isso é pura bobagem. Mãe é mãe, seja de filho adotivo, canino, humano, biológico, ou outro. O amor é o mesmo.

“O que me torna mãe do Ícaro é a prioridade que damos a eles em nossas vidas,” afirma Juliana, uma mulher serena e confiante. “São todos meus filhos,” completa a niteroiense.

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Foto* (acima): Juliana com seus dois filhos

E, de fato, esse lugar de destaque ocupado pelo Ícaro é algo inegável. Para que o casal possa viajar para Porto Alegre, cidade de onde vem a família de Juliana, o avô materno do Gorducho precisa ficar hospedado na casa deles, garantido uma rotina de conforto, mimos e cuidados para o príncipe da casa. Como a raça sofre muito com o calor, existe todo um sistema de climatização da casa durantes os meses do verão. Até hoje, quem dorme na cama do casal é o Gorducho, que gosta de ficar em cima do pai enquanto sonha.

Juliana e Daniel perceberam que Gorducho tinha tudo para ser um excelente irmão mais velho. Quando a gravidez de Juliana estava avançada e o Gorducho via a Luiza se mexer, ele lambia a barriga da mãe, já cheio de amor para dar para a futura irmã. No dia em que a Juliana chegou em casa com Luiza, ela e o marido se prepararam para a típica recepção entusiasmada de Ícaro. Como o Ducho é mais apegado à Juliana, eles combinaram que seria o Daniel que entraria com a Luiza no colo para evitar maiores ciúmes . “Eu esperava um trator quando eu entrasse pela porta,” conta Juliana. Mas Gorducho ficou observando sua irmã entrar em casa de mansinho, curioso (e quem sabe até um pouco desconfiado?) com o que estava acontecendo.

Adivinha quem ficou num cercadinho quando a Luiza chegou em casa? Não, não foi o Ducho. Foi a Luiza. “Quem ficava presa era ela,” conta Daniel. “Claro, ele chegou primeiro, a casa é dele!” exclama Juliana.

Luiza ficava num espaço reservado para ela na sala de estar do apartamento da família enquanto seus pais se ocupavam com tarefas rotineiras. Já o Gorducho tinha livre acesso a toda a casa. Desde os primeiros dias de vida de Luiza, Juliana e Daniel fizeram questão de incentivar o Gorducho a conviver com a nova irmã, com direito a cheirada de pés, lambidas e outros carinhos. É claro que, por ela ser uma bebê muito pequena, todos tomavam certos cuidados com a higiene, como passar álcool gel nas mãos e pés da bebê depois das brincadeiras. E, obviamente, era uma convivência supervisionada, sendo que a Luiza era colocada em seu cercado nos momentos que tal gerência não era possível. Se o Ícaro fosse um shih tzu, yorkshire ou mesmo um pastor, isso provavelmente não seria necessário. Mas buldogues são como crianças mais velhas empolgadas e desastradas e suas brincadeiras são intensas.

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Foto (acima): Gorducho Ícaro de olho na irmã

Gorducho também participava de todos os cuidados com a irmã.

“Se era hora do banho, ele estava lá ao nosso lado. Na hora da amamentação, ela ficava nos meus braços e, ele, na minha perna. Tudo que eu fazia com ela eu fazia com ele do lado para ele entender que aqueles momentos também eram dele,” conta Juliana.

Um dia, enquanto Juliana estava preparando a comida dos filhos na cozinha, ela percebeu que Luiza tentava escalar os pufes que eram usados como divisória da área que tinha sido criada para ela.

“Vi que a Luiza tinha se inconformado com sua separação física do Ducho, mesmo que por alguns minutos. Ela estava estendendo seus braços para poder brincar com o irmão,” conta Juliana.

Juliana decidiu, então, que estava na hora do Ducho e Luiza, na época com 1 ano recém completo, conviverem juntos de maneira irrestrita. Afinal, Luiza já estava maiorzinha, podendo se expor mais à vitamina S. O Ducho já tinha entendido que aquele pequeno ser de olhar curioso e cílios que parecem não ter fim, era menor e mais delicado do que os outros membros de sua matilha. Para eles, tinha chegado aquela hora que chega para todo casal de irmãos: eles teriam que aprender a coexistir.

O resultado? Um sucesso da vida real, cheio de tentativas e erros, imprevistos que rendem histórias divertidas para contar e situações que contribuíram positivamente (e ainda contribuem) para o desenvolvimento emocional e intelectual de Gorducho Ícaro e Luiza.

Houve momentos difíceis, é claro. O primeiro mês de adaptação da Luiza foi extremamente difícil. O Ducho estava tentando entender o porquê de sua rotina ter sido alterada com a chegada da irmã e a Luiza ainda estava naquela fase de bebê recém nascido, ou seja, ela dava muito trabalho (alguma mãe discordaria que o primeiro mês da vida de qualquer bebê é um desafio de proporção homérica?).

Quem conhece a raça, sabe que buldogues ingleses são extremamente carinhosos, amorosos, protetores e leais. Eles são tidos como uma das melhores raças de cães para convívio com crianças (embora, na minha opinião, não haja cachorro ruim para esse fim). Agora, não dá para negar que eles também são persistentes (ok, teimosos), animados e destrambelhados, uma combinação que causa medo em muitas pessoas.

“Mas ele é forte! Pode derrubar a Luiza!”

“Ele pode morder sem querer, aquelas mordidas de brincadeira.”

“E se numa brincadeira ele der uma cabeçada na irmã?”

De fato, existem riscos. Assim como há riscos por toda parte na criação de filhos (tomadas expostas, fios de aparelhos eletrônicos, lâmpadas pisca-pisca de árvores de Natal, maus-tratos de terceiros, quinas, piscinas descobertas, alturas etc.) e, também, na adaptação de um irmão mais velho com um mais novo (ciúme, retaliação por ter perdido o lugar de favorito, falta de jeito na hora de segurar o bebê, um estragar o brinquedo do outro, um bater no outro, eles se machucarem durante uma brincadeira etc.). Trata-se de algo inevitável quando há mais de um filho. Não existe nuvem protetora que pode encobrir nossos filhos e protegê-los de todos os males, seja eles bem intencionados, acidentais ou propositais.

Juliana e Daniel sabiam que a única forma de mitigar esses riscos seria educando os dois filhos. E, quando o objetivo é a educação, todo bom pai e mãe sabe que não existem atalhos. O que existe é a criação de uma rotina com muita paciência, disciplina e humildade, com a certeza de que antes de acertar, todo pai irá errar.

Quando Juliana e Daniel me receberam em sua casa, boa parte dessa jornada educadora já tinha sido percorrida. Testemunhei a convivência de dois irmãos, um canino e uma humana, que se amam muito. Quando Luiza come, seja uma refeição ou um lanche, ela faz questão de dividir um pouquinho da delícia preparada por sua mãe com o irmão. Quando o Ducho resolve morder uma garrafa, a Luiza vai lá abocanhar uma similar para entender qual é a graça daquele objeto de plástico. Quando o Ducho percebe que sua mãe está com a Luiza no colo, ele entende que será o pé (e não a mão) de sua mamãe que irá acariciá-lo. E quando seu papai faz carinho no Ducho, Luiza aproveita para contribuir para as carícias. Dos dois, o mais ciumento é a Luiza, que não gosta quando outras crianças estranhas apertam o seu irmão. O Ducho respeita os brinquedos da Luiza (ok, tem uns que ele cisma que são dele, mas devolve quando ouve um protesto de sua mãe). E, como um bom irmão mais velho, quando está na hora de brincar, o Gorducho esconde seus brinquedos e sugere que eles usem um da Luiza (digo que isso é coisa de primogênito porque eu fazia a mesma coisa com minha irmã caçula). Os dois se beijam, abraçam e brincam como um casal de irmãos saudáveis e felizes.

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Foto* (acima): Luiza e Gorducho brincando na pracinha

O Gorducho parou de ser arteiro e bruto? Claro que não. Ele é um buldogue, afinal. Mas a Luiza aprendeu a lidar com o jeito dele, a perceber quando o irmão se empolga e, nessas horas, ela impõe limites.

“Foi um processo de tentativa e erro,” explica Daniel. “É preciso perceber o que dá certo e o que não dá, impor limites e regras para um bom convívio e, acima de tudo, dar muito amor.” Um exemplo? Inicialmente, o quarto da Luiza era mantido fechado para o irmão, mas Juliana e Daniel logo perceberam que isso não era o ideal, nem para o Ducho, nem para a Luiza, e liberaram a entrada de seu primogênito que passou a fazer companhia para a irmã durante os cochilos.

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Foto (acima): Gorducho tomando conta da Luiza enquanto ela dorme

Esse processo de convivência de dois irmãos é muito natural quando se têm dois filhos humanos. É raríssimo ouvir que alguém está pensando em doar o mais velho só porque o mais novo chegou. Então, por que será que exatamente isso ocorre com filhos caninos? Cachorros encaram suas famílias como verdadeiras matilhas e são extremamente leais a elas. Jamais passaria pela cabeça de um cão abandonar seus pais independentemente da recompensa.

Entendo que o processo de chegada de um bebê humano em casa muda tudo. De repente, passam a haver preocupações relativas a segurança e higiene que antes não existiam. Foi assim com a Juliana. No começo, algo bobo como o pelo do Gorducho, que antes ficava tranquilamente espalhado pela casa até a hora de varrer, precisou ser limpo com mais frequência. Algo trivial como um pulo dele de felicidade precisou ser dosado, para não machucar a Luiza. E o mais difícil: a atenção de Juliana e Daniel, que antes era toda do Gorducho, precisou ser dividida com a irmã. “Eu me culpava quando tinha que dar de mamar à Luiza e via que o Gorducho queria toda minha atenção. Me partia o coração.” Como forma de atender às carências do Gorducho, Juliana colocava a Luiza para dormir e, mesmo exausta, ficava um tempo na sala com seu filho canino, dando atenção exclusiva a ele.

É fácil? É claro que não. Mas quem foi que disse que ser pai e mãe é fácil?

E, apesar de todos os desafios, existe uma contribuição positiva imensurável ao promover o convívio de filhos humanos com filhos caninos. Sabe-se que crianças que são criadas com cães desenvolvem maior senso de empatia, compaixão e responsabilidade. Crianças que tem irmãos caninos desenvolvem mais anticorpos e raramente têm alergia a animais, já que desde os primeiros dias dentro da barriga da mãe eles são expostos a pelos e saliva canina. Luiza, que nunca ficou doente na vida, é um perfeito exemplo de como ter um irmão cachorro só ajuda na saúde de uma criança humana.

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Foto* (acima): Luiza e Gorducho brincando de casinha

“É muito importante conhecer o seu filho canino e adaptar esse processo de introdução do filho humano da melhor maneira possível. Cada cachorro tem um jeito e com o Ducho nós encontramos a melhor forma para ele. Não existe um fórmula,” conta Daniel.

“Também é muito importante ter uma equipe médica que pense como você,” explica Juliana. “A pediatra da Luiza não vê qualquer problema em ela ter um irmão que é cachorro, pelo contrário, sempre encarou isso como algo positivo e natural.”

Por isso, um apelo às mães de filhos de quatro patas que terão, também, filhos humanos: ao invés de sucumbir àquela voz que lhe deixa com medo de gerar a convivência entre seus buldogues e humanos, façam como Juliana e Daniel, líderes do movimento #todosmeusfilhos. Eles garantem: dá trabalho, mas vale a pena!

Além do Ducho e da Luiza, Juliana e Daniel também são pais de dois lindos gatinhos, Tolfo e Teodora. “Eles têm personalidades muito diferentes. O Tolfo é mais na dele e aceitou o Ducho numa boa,” conta Juliana. “Já a Teodora é mais de provocar. A gente brinca que ela é a personal cat do Gorducho porque ela o incentiva a fazer exercícios com suas brincadeiras implicantes,” conclui Daniel.

O lar dessa família linda é um lugar repleto de amor e felicidade. Basta tocar a campainha para ouvir o latido entusiasmado do Ducho. Em seguida, começa a festa que ele faz para as pessoas que entram em seu território, carinhoso, brincalhão e, sim, levado (mas qual filho de dois anos e meio não é?). Como na casa de tantas amigas minhas que têm filhos humanos, nota-se, de imediato, os brinquedos e acessórios de uma criança humana – Peppa Pig, Mônica, Meu Pequeno Pônei, Galinha Pintadinha, comedouros – mas também não faltam almofadas, mantas e outros acessórios com o tema de buldogue inglês, além dos diversos brinquedos do Ícaro. Para os interessados em acariciar a Luiza, hoje em dia com 1 ano de idade, é importante avisar que o Gorducho Ícaro deixa, mas ele fica vigiando a pessoa até se certificar que ela é, de fato, de confiança. Para os interessados em fazer carinho no Ducho, aviso que a recepção é tão calorosa e apaixonante que é capaz de você sair de lá interessado em adotar um buldogue inglês.

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Foto* (acima): Juliana, Luiza, Daniel e Gorducho

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

* = Fotos tiradas pela fotógrafa Taty Merlim (taty.merlim@hotmail.com).

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5 comentários em “#todosmeusfilhos

  1. Anna
    27 de maio de 2015

    Amei! Que família linda!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Barbara Vianna
    28 de maio de 2015

    já acompanho essa história linda na bulldogada carioca 🙂 e foi uma fonte de inspiração pra nossa família também já tinhamos Maria Joaquina e Bongo filhos de 4 patas e Ana Luiza “serumana” quando chegou o Bernardo hoje com 6 meses e sempre nos inspiramos na hístoria de Luiza e ícaro . Lindos de mais e o amor só aumenta #todosmeusfilhos

    Curtido por 1 pessoa

  3. Adriana
    28 de maio de 2015

    Uma família linda e feliz.parabens Ju.
    Nós que temos filhos caninos . Sabemos quantas alegrias eles nos proporcionam .
    Bjss pra vc , Daniel, Ducho e Luisa.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Tárcila Ornelas
    29 de maio de 2015

    Simplesmente perfeito!!!
    História muito bem contada e passada pela Fernanda mãe do Baba, experiencia magnífica da mamãe a papai do Icaro e da Luiza e fotos linndas da Taty!!

    Todos de parabéns!!!!

    Curtido por 1 pessoa

  5. eujurosa
    29 de maio de 2015

    Obrigada a TODAS!!! Estamos no Instagram: @eujurosa

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Publicado em 27 de maio de 2015 por em Ponto de Vista.
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