Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

True Love’s Kiss

true loves kiss

Todo mundo conhece a história. Ela é contada em muitas versões, mas a mensagem é sempre a mesma.

A Branca de Neve era tão linda que, quando ela morreu, os sete anões decidiram coloca-la num caixão de vidro. Um príncipe de um reino vizinho que andava pela floresta no momento do velório parou para ver o que estava acontecendo e, ao se deparar com a Branca de Neve atrás do vidro, se apaixonou perdidamente pela linda donzela. Movido pela maior força do mundo – o amor verdadeiro! – o príncipe não resiste e a beija. Esse beijo age como um antídoto porque, afinal, o beijo do amor verdadeiro é a magia mais poderosa do mundo, a única capaz de combater o veneno da maça da bruxa má.

E a Bela Adormecida, que tal? Ela foi atingida por uma maldição terrível que a fez dormir um sono tão profundo, blá, blá, blá, o príncipe que acaba de conhecê-la (dormindo!) a beija e acorda a deslumbrante monarca do seu sono intenso.

Hum…

E ninguém acha isso estranho? Sério? Ninguém?

E não é somente em histórias de morte/sono profundo, não. Na história da Cinderella, o príncipe se apaixona pela própria ao olhar para ela. Olhar! Sim, eles dançam e ele corre atrás dela quando ela começa a perceber que já é meia-noite, mas a história é clara: o amor deles surge com um olhar. O mesmo acontece na história da Pequena Sereia. Quando o Eric acorda na praia e vê a Ariel cantando e olhando nos seus olhos, ele se apaixona. Quando a Úrsula o enfeitiça qual é a única forma de fazê-lo acordar do transe? O beijo do amor verdadeiro!

Os detalhes das narrativas mudam, mas o conceito é sempre o mesmo: amor à primeira vista e a força do primeiro beijo, que é o beijo do amor verdadeiro.

Legal, e o Papai Noel chega quando, dia 24 ou 25? O Coelhinho da Páscoa fica escondido debaixo da nossa cama para guardar os chocolates? Sim, porque, já que é para acreditar em absurdos, que sejam absurdos que tragam chocolates!

É possível que alguém diga, “Que mal há? É só uma história! Folclore!”

Aham.

Cara Leitora Afiada, pare para reparar quantas mulheres você conhece – talvez uma no espelho? – que está ou já esteve à espera do seu príncipe encantado? Quantas mulheres acreditaram que um dia elas iriam conhecer um cara que iria mudar sua vida para melhor e transformar seu mundo num conto de fadas? Quantas mulheres deixaram de focar em suas carreiras e tomaram decisões grandiosas em nome do amor?

Talvez você esteja dizendo “E que mal há em priorizar o amor?” Quero ser clara: não há, necessariamente, um mal nisso. Priorizar o amor é algo que eu inclusive já me declarei a favor em um outro post.

Mas, voltando às mulheres que mudam a vida toda por homens, há quanto tempo elas os conheciam? Quantos encontros elas tiveram antes de declarar que tinham conhecido seu príncipe? E quanto tempo de namoro elas tinham quando começaram a fazer planos de passar o resto da vida com esse homem? Quantos beijos foram necessários para que elas começassem a planejar a festa de casamento? Antes de decidir trocar alianças, eles conversaram sobre os valores de cada um? Planos de construir uma família? Orçamento do casal? Religião? Visão política de cada um? Pararam para analisar se o cara as trata como parte igual no relacionamento? Como parceira e companheira de vida? Enfim, deram tempo ao tempo, para que, com cada passo dado no relacionamento, eles se conhecessem profundamente?

Para muitos casais, a resposta é sim. E isso é ótimo! Não garante a longevidade de relacionamento algum. Não significa que esse casal será feliz. Mas ajuda muito. A Letícia mesmo diz, não existe fórmula do amor.

Mas existe fórmula do desastre.

E achar que olhar para alguém é o suficiente para se apaixonar pela pessoa, é receita para desastre. Se permitir imaginar que, após um único beijo, é possível saber que a pessoa é seu amor verdadeiro, é receita para o desastre.

E não é que a Disney percebeu isso?

Gosto de imaginar que o exército de Walt se reuniu numa sala para discutir a responsabilidade social que eles têm para com as mulheres (e homens) do mundo.

“Já está na hora de alguém retratar o amor de forma razoável!” uma delas teria dito.

“Precisamos parar de plantar sementes inatingíveis nas mentes das meninas!” outro poderia ter declarado.

“Mas nossas histórias precisam ter magia! E já investimos muito no conceito do beijo do amor verdadeiro!” lembraria um outro alguém.

Sim, minha imaginação é fértil.

Bom, depois dessa reunião (imaginária) eles começaram a testar o mercado.

Primeiro, com Shrek. Não foi o original, não. Foi um que o Rumpelstiltskin rouba um dia da vida dele, o dia que ele nasceu, e ele se vê num mundo onde a Fiona não o reconhece, muito menos sabe que ele é o amor da sua vida. Para quebrar o feitiço, ele insiste que precisa beijá-la – afinal, o beijo do amor verdadeiro é capaz de reverter qualquer feitiço! É a magia mais poderosa de todas! – e o que acontece depois que seus lábios se encontram? Nada. Afinal, nesse mundo paralelo, a Fiona não o ama (como amar se ela sequer o conhece?). Ele, então, precisa lutar para conquistá-la, dia após dia, até que o beijo passa a realmente ser o beijo do amor verdadeiro.

Deu certo, Shrek foi um sucesso, mas essa mensagem ficou em segundo plano. O foco da história era outro.

Entra em cena: Frozen!

Quando a Anna decide se sacrificar para salvar sua irmã, Elsa – e existe amor mais originalmente verdadeiro do que o amor entre irmãs? – ela mesmo se salva porque o ato dela vale como um ato de amor verdadeiro (não precisa ser beijo!).

Por fim, Malévola, a história da vilã da Bela Adormecida. O filme é ótimo, por sinal. Quando a Bela Adormecida cai no sono profundo a Malévola tenta reverter a maldição já que ela ama a Aurora como uma afilhada (ela, inclusive, chama a Malévola de madrinha), mas ela percebe que ela mesma lançou o feitiço tão bem lançado que não há poder no mundo que pode revertê-lo EXCETO o beijo do amor verdadeiro. Note que, quando a Malévola recitou o feitiço, ela escolheu essa ressalva de propósito, já que ela não acreditava no beijo do amor verdadeiro. E, na ocasião, a intenção dela era que a Aurora nunca acordasse.

As três fadas madrinhas da Aurora ficam felizes da vida quando um príncipe, que já tinha visto a bela princesa, se encantado com sua beleza e, senão me engano, trocado até algumas palavras com ela, chega no castelo. Elas insistem que ele deve beijá-la porque, afinal, a Aurora é uma princesa! Ele é um príncipe! Eles já tinham trocado olhares apaixonados! Amor verdadeiro, oras! Até a Malévola fica com uma certa esperança. Vai que esse príncipe é mais sincero do que seu amor, aquele que cortou suas asas?

Então, o príncipe bem intencionado, hipnotizado pela beleza da Aurora (ele claramente estava super a fim dela!) dá um beijo na Aurora e… Nada. Nadinha. A Aurora continua dormindo.

Com seu coração partido por ter amaldiçoado sua afilhada, Malévola dá um beijo na testa de Aurora e, voilá, ela acorda. O beijo do amor verdadeiro veio da sua madrinha! Nem preciso dizer que eu, madrinha babona, adorei esse final, né?

Ainda é pouco, mais o esforço é louvável. Sim, as meninas ainda querem festas da Cinderella e ainda acreditam que ela é o máximo só porque ela tem um sapatinho de cristal. As meninas continuam doidas pela Branca de Neve do desenho animado, que basicamente canta e faz faxina e foge de tudo. Pessoalmente, minha favorita sempre foi a Jasmim, que apesar de mimada e teimosa, tem um tigre! Sério, deve ser muito legal ter um pet tiger! Enfim, as princesas tradicionais e as narrativas continuam fazendo sucesso, continuam exercendo uma influência grande na mente das meninas.

Mas há excelentes sinais de mudança.

Quem assiste Once Upon a Time, série de TV norte-americana, sabe que lá é tudo diferente. A Branca de Neve é uma guerreira, a Bella uma estudiosa e o tal amor verdadeiro é retratado de forma responsável, forte, inabalável e lindo, mas ele demora para acontecer. Não é à primeira vista.

E na vida real é assim mesmo. Claro, existe atração à primeira vista. Até mesmo paixão ao primeiro beijo. Mas amor? Amor verdadeiro? Amor da vida? Só com o tempo. Só construindo com muita paciência, cumplicidade, ternura, negociação, parceria, sacrifício, priorização, amizade, perdão, respeito, troca, ensino, confiança e muito mais.

O beijo do amor verdadeiro é aquele que a gente dá antes de dormir, noite após noite, no nosso marido e nos nossos filhos. O beijo do amor verdadeiro é aquele que a gente dá na nossa avó em razão do aniversário de 88 anos de idade dela ou simplesmente porque é terça-feira e sua avó está na sua frente. O beijo do amor verdadeiro é aquele que recebemos da nossa afilhada quando ela vem correndo, berrando “Dinda! Dinda!” ao ver que você chegou. O beijo do amor verdadeiro é o que sua irmã tasca na sua bochecha ou o que você dá nos seus pais ao agradecê-los por tudo que eles fizeram por você.

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

É o beijo de uma família.

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Um comentário em “True Love’s Kiss

  1. asafiadas
    18 de dezembro de 2014

    Mulherada de plantão,
    Amor á primeira vista não existe! O que existe é calor na periquita à primeira vista!
    Eva

    Curtir

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Publicado em 17 de dezembro de 2014 por em Ponto de Vista.
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