Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

O Restaurante (uma obra de ficção) – Parte III

matza

Parte III 

Camilla

A Tia Sil chegou na sexta-feira, mas eu não pude buscá-la no aeroporto porque a minha mãe disse que eu não poderia faltar aula. Eu tentei explicar para ela que eu não iria perder nada demais, que eu já tinha estudado a matéria toda mesmo durante as horas de estudo forçado que ela me obrigava a cumprir todo dia, mas você acha que adiantou? É claro que não! Então eu só consegui ver a Tia Sil depois de chegar em casa. Eu passei a quinta-feira cozinhando bagels porque todo mundo sabe que americanos amam bagels. Eu percebi que a mamãe estava prestes a reclamar, mas eu fui mais esperta do que ela!

– Você sempre diz que cozinhar faz parte da cultura judaica. Bagel é um pão judeu!

Ela ficou irritada, mas aceitou. Demorou para eu conseguir acertar a receita, até porque eu nunca tinha comido bagels antes, mas a Letícia, minha amiga da escola, disse que a última leva tinha ficado igual aos que ela já tinha comido em Nova Iorque. Fui ao supermercado e usei dinheiro da minha própria mesada para comprar cream cheese e geleias porque a Letícia disse que ninguém come bagel puro e também que ninguém usa manteiga. Eu achei o tal do cream cheese bem parecido com requeijão mesmo. Quando contei para minha mãe, ela virou os olhos e começou a reclamar, mas eu tinha usado meu dinheiro e não era como se eu tivesse comprado drogas! A mamãe sempre foi esquisita, mas há uma semana ela parecia estar nervosa também. Tudo a irritava! Comentei com uma amiga da escola e ela me falou que poderia ser a menopausa.

Quando eu cheguei em casa, a Tia Sil estava na sala com a mamãe, conversando e tomando um guaraná diet. Eu amo guaraná (a mamãe não me deixa tomar o diet) e adorei ver, logo de cara, que a minha tia tinha tanta coisa em comum comigo! E eu puder ver o que eu já tinha percebido pelas fotos de família: nós somos muito parecidas fisicamente. Tipo, poderíamos ser irmãs! Nossas bocas, narizes e até o amarelado dos olhos eram parecidos. Eu tinha bem mais sobrancelha do que ela, e eu já tinha pedido para a mamãe me deixar modelar, só que ela dizia que eu era muito nova para isso (o fato de que as minhas amigas já faziam a sobrancelha há muito tempo não era um argumento aceito na minha casa).

Eu já tinha percebido há muito tempo que eu não tinha nada dos meus pais, nem fisicamente, nem em termos de personalidade. A minha mãe é toda quadrada, cheia de regras e lições de moral. E, mais do que isso, ela sempre foi desconfiada comigo, mesmo sem eu ter dado motivo para isso. Eu não conheci meu pai porque ele morreu quando minha mãe ainda estava grávida de mim, mas já vi fotos dele e a gente não tinha nada a ver. Sem falar que ele era advogado e eu não sei o que eu quero escolher quando chegar a hora do vestibular, mas eu sei que eu definitivamente não quero fazer algo chato como Direito.

A Tia Sil me deu um abraço enorme e até chorou quando me viu! Acreditam, nisso? Chorou! Ela disse que não me via desde que eu era um bebê e que estava com muitas saudades. Eu falei que a gente se via toda hora por Skype e Facetime, mas ela disse que isso não era a mesma coisa. Ela ficou me olhando com os olhos cheios de lágrimas, mas com um sorriso bem grande no rosto, passando a mão nos meus cabelos (que também são iguais aos dela). E olha como ela e eu pensamos igual: foi só ela ver minha sobrancelha que ela franziu e falou para a mamãe:

– Ela precisa fazer as sobrancelhas, Mari.

Ha! Agora eu entendia o motivo da mamãe estar ainda mais estranha. Ela sabia que a Tia Sil e eu pensávamos iguaizinhas sobre tantas coisas e ela não queria ficar de fora. Eu vibrei com o comentário da sobrancelha, mas tomei cuidado para não falar algo que pudesse deixar minha mãe triste. Afinal, ela era minha mãe. Ela sempre foi diferente de mim e ela podia ser muito chata, mas eu sabia que ela me amava muito. E eu também não queria que ela ficasse ainda mais irritada porque isso só iria estragar a visita da Tia Sil.

– Mãe, você vai fechar o Matza hoje?

Apesar do restaurante ter um gerente de máxima confiança, a minha mãe tinha o hábito de andar os poucos passos que separavam nosso apartamento do Matza para acompanhar o fechamento do caixa. Até os sete anos de idade eu sentia ciúme do restaurante porque ele era como ter um irmão, quer dizer, eu tinha que dividir a atenção da minha mãe com ele. Mas há muito tempo que a intensidade do foco da minha mãe me sufocava. Eu sabia que toda mãe se preocupava com sua filha, mas a forma dela de amar era demais mesmo considerando que eu era filha única. Era um amor ansioso, preocupado, parecia que ela estava me analisando a todo momento, como se eu fosse de outra espécie e, por isso, pudesse fazer algo arriscado ou perigoso, ou sei lá o que.

Eu queria que a minha mãe entendesse que a preocupação dela não tinha o menor fundamento. Eu via pelas meninas mais populares da minha turma, todas praticamente com quinze anos, que já namoravam, muitas já saíam com rapazes e deixavam eles fazerem o que bem entendiam com elas. Minha mãe achava que eu era popular porque eu não me vestia de cinza dos pés à cabeça e porque eu ouvia música pop, mas a verdade era que a minha turma acabava sendo adjacente a dos nerds. Eu jamais admitiria para a minha mãe, mas parte de mim ficava feliz que ela me obrigava a estudar tanto. Era melhor do que ser como a Natasha, que já tinha repetido de ano e mesmo assim não conseguia acompanhar a matéria. Ou como a Sabrina, que levantava a mão em sala de aula com boas intenções e entusiasmo de sobra, mas que não conseguia sequer formular uma pergunta coerente.

Eu desconfiava que a mãe dessas meninas não se preocupava com elas como a minha se preocupava comigo e com o Matza. Mas naquele dia a mamãe disse que não iria fechar o restaurante:

– Hoje não, filha. Vamos jantar em casa mesmo? Preparei algo especial para nós.

– Sopa de matzo ball?

– Sim! Por que você não sobe para fazer seu dever de casa enquanto a Tia Sil e eu conversamos um pouco? Já chamo você.

Eu queria pedir para ficar, mas senti que a Tia Sil e a mamãe trocaram um olhar que era para ter ficado só entre as duas. Eu fingi que não vi e sai da sala, encostando a porta que dividia a área íntima da parte social. Chegando no meu quarto, fechei a porta e o sino japonês da felicidade pendurado fez um barulho que já tinha se tornado familiar para minha mãe quando a porta se mexia. Mas o detalhe era que eu tinha fechado a porta comigo do lado de fora do quarto. Andei na ponta do pé até a porta que eu tinha deixado encostada e sentei no chão. Eu mal conseguia ver a mamãe e a Tia Sil pela dobradiça, mas conseguia ouvi-las bem. Eu sabia que era feio ouvir conversa alheia, mas eu estava convencida de que o assunto que elas iriam discutir era a festa de quinze anos que a Tia Sil prometeu fazer para mim e eu queria ver como ela iria convencer a minha mãe.

– Ela se parece tanto comigo, Mari.

– Eu sei. Às vezes eu chego a me assustar com a semelhança. Eu sei que é ridículo, mas eu fico tentando procurar algo meu nela.

A voz da minha mãe era triste. Pelo visto minha intuição estava certa: ela não gostava de ter uma filha tão parecida com a Tia Sil. Prometi para mim mesma que eu iria apaziguar esse ciúme da mamãe. Eu não queria vê-la triste.

– Ridículo não é, Mari. Ela tem sua genética.

– É, mas ela tem mais a sua.

Minhas orelhas começaram a faiscar com aquele comentário. Minha genética era mais da Tia Sil? Eu quase falei algo, me esquecendo que estava tentando manter minha presença escondida, mas a Tia Sil sussurrou:

– E tem também a genética…

– Mas a gente não sabe exatamente –

– Agora sei.

– Sabe?

– Sim, ficou claro quando vi a sobrancelha dela.

– Silvia! E quem é? Eu sempre quis saber. Isso é importante. Já pensou se algum dia ela precisa de um transplante? De uma doação de algum tipo? No desespero de repente a gente procura…

– É dele mesmo. Do Alexandre.

Minha mãe cobriu a boca na mesma hora em que ela soltou um pequeno grito. Sua voz soou tão chocada, tão sofrida, que eu senti o ar sendo cortado com uma faca quando ela falou:

– Então a minha filha é filha do Alexandre.

– É.

– Eu não sei se isso é melhor ou pior.

– Eu também não. Não acho que seja nem uma coisa, nem outra. Mas ela precisa fazer a sobrancelha. Olhar para ela foi como ver uma mistura dele comigo. Até hoje eu sinto nojo, sinto medo… ah, Mari, eu sinto tanta vergonha!

Àquela altura meu coração estava batendo mais forte do que eu imagina ser possível. Eu agarrei meu peito, numa tentativa de fazê-lo bater mais devagar porque eu estava convencida de que o som era tão alto que elas iriam ouvir. Minha respiração parou por um momento, como se meu corpo tivesse assustado demais para operar. O que elas estavam dizendo? Meu pai não era meu pai? E por que a Tia Sil sabia disso e não a mamãe? Elas continuavam conversando e eu percebi que tinha perdido um pedaço do diálogo.

– Você fez um trabalho incrível com ela, Mari. Desculpa se eu… Desculpa por ter…. Quero dizer, desculpa… Ah, nem sei o que falar…

Minha mãe ficou quieta por alguns segundo e puxou a Tia Sil num abraço, como ela já tinha feito comigo tantas vezes, especialmente quando eu era criança e chegava da escola chorando porque alguém tinha me chamado de órfã de pai. A Tia Sil estava chorando como um bebê, soluçando, esfregando o nariz e abrindo a boca. Eu nunca tinha visto uma adulta chorar assim.

Foi sem querer, mas eu comecei a chorar também. Sem pensar no que eu estava fazendo, me levantei e fui até a sala, sem me preocupar em andar sem fazer barulho.

A minha mãe me viu primeiro e o rosto dela mudou completamente. A face dela, naturalmente branquinha, ficou pálida. Ela não tinha nem mais cor nos lábios. Os olhos dela pareciam que iriam pular para fora do seu rosto.

– Mãe?

Eu me surpreendi com o tom da minha própria voz. Minha fala estava tremida, assim como o resto do meu corpo. Eu estava olhando para a minha mãe, mas a minha Tia Sil levantou o rosto e balançou a cabeça, num gesto de sim. Eu olhei para ela, confusa, perdida. Mas naquele momento eu entendi. E voltei a olhar para a minha mãe.

– Você não é minha mãe?

Ela se levantou para me abraçar e, provavelmente, mentir para mim, dizer que eu era filha dela sim, que eu tinha ouvido tudo errado, mas eu não queria ouvir nada daquilo. Minha vida toda era uma farsa. Minha mãe era minha tia e a minha tia soube quem era meu pai quando ela olhou para mim. E ela me detestava tanto que tinha ficado esse tempo todo longe e sentiu nojo e vergonha de mim quando me viu.

Corri para meu quarto e tranquei a porta. Há alguns meses a minha mãe tinha concordado em deixar a chave na porta desde que eu prometesse que eu nunca iria usá-la. Virei a chave sem remorso, deitei na cama, enterrei meu rosto nos travesseiros e comecei a chorar. Entre um soluço e outro eu ouvi a maçaneta virando, minha mãe batendo na porta e escutei as vozes dela e da Tia Sil me chamando do lado de fora do quarto. Mas ninguém entrou. Se a minha mãe tinha cópia da chave – e eu suspeitava que ela tinha – ela não a usou.

Não me lembro ao certo quando eu dormi, mas quando eu acordei eram três e meia da manhã. Acho que eu tinha chorado toda a reserva d’água do meu corpo porque eu estava morrendo de sede. Calculei que era seguro ir à cozinha, era cedo demais para até mesmo a minha mãe estar acordada. Mas quando eu abri a porta do meu quarto vi a minha mãe deitada no chão, de olhos fechados, uma mão dela semiaberta, com uma chave dentro. Eu devo ter feito algum barulho porque ela abriu os olhos e falou:

– Filha.

– Mãe, você dormiu no chão?

Ela esfregou os olhos e sentou no chão. Eu sentei ao lado dela. Ela levantou a mão dela para me mostrar a chave e disse:

– Eu quase abri a porta, mas me segurei.

– Mãe, o que foi aquilo que eu ouvi ontem?

O rosto da minha mãe ficou concentrado, focado. Não parecia que ela tinha acabado de acordar. Claramente, ela já tinha pensado sobre o que falar para mim quando eu perguntasse o inevitável.

– Eu vou te contar tudo. Mas, antes, vamos para a cozinha. Você deve estar com sede.

Como é que ela sempre sabia?

E foi sentada nas cadeiras da cozinha que eu vi a minha mãe respirar fundo e me contar a verdade:

– Sua Tia Sil sempre foi muito bonita, quase tão bonita quanto você. E ela também tinha um coração muito bom, muito puro e, infelizmente, muito ingênuo. Ela não percebia a maldade das pessoas. Ela tinha um namoradinho, o nome dele era Alexandre…

Acho que a mamãe falou durante quase uma hora. Ela me contou como a Tia Sil tinha conhecido o Alexandre, contou que ele era o tipo de rapaz que era o pesadelo de toda mãe. Ele corria de carro, andava de moto, não fazia a menor questão de conhecer meus avós. Ele era mais velho e tratava a minha tia como uma menina boba. E a Tia Sil queria mostrar que ela já era mais velha, que ela já tinha maturidade o suficiente para ser namorada dele. Depois de um tempo implicando com a Tia Sil por ser cinco anos mais nova do que ele, esse rapaz disse a ela que se ela passasse num teste ela poderia ser a namorada oficial dele.

Ele a levou para um motel e, chegando lá, eles dormiram juntos. A Tia Sil era virgem e a mamãe contou que ela não estava preparada para aquilo, mas que estava determinada a mostrar ao Alexandre que ela não era mais uma menininha como ele dizia. O susto grande veio quando a Tia Sil descobriu que dentro do quarto do motel tinham vários amigos do Alexandre e que eles tinham visto tudo. A voz da mamãe, geralmente tão contida, tão sistemática, começou a falhar quando ela contou a próxima parte:

– Eles forçaram ela a… bem, você pode imaginar. Eram quatro rapazes. Sua Tia Sil gritou, disse que queria ir embora, tentou fugir, mas foi em vão. Ela mal se lembra como ela saiu de lá. Ela não teve coragem de ir para a casa dos nossos pais, então ela foi para a minha. Eu me lembro dela chegando, toda roxa, com parte da roupa rasgada, descabelada e com o lábio cortado. Ela me contou tudo naquela noite. Eu quis ligar para nosso pai, quis ir à polícia. Acima de tudo, queria matar esse Alexandre e esses outros homens nojentos e horrorosos, mas a sua Tia me fez prometer que eu iria guardar o segredo dela. Ela tinha se convencido de que tudo isso era culpa dela, por ela ter insistido que ela tinha idade para ser namorada daquele monstro. Demorou muito tempo para ela entender que ela foi a vítima de um psicopata, de um homem sem mãe, sem escrúpulos. Na verdade, não sei se ela entendeu isso até hoje. Camilla, minha filha, eu acho você tão nova para ouvir isso, mas eu não quero mais mentir para você. Pensei em não te contar tudo, mas acho que você tem o direito de saber.

Eu mal conseguia acreditar no que eu estava ouvindo. Aquela não poderia ser uma história da minha família. Parecia mais um filme de terror. Até que eu me toquei do que a minha mãe estava me contando e perguntei:

– É por isso que ela disse que sentiu nojo quando me viu. Eu fui concebida nessa noite horrorosa, não fui?

– Mas, minha filha, você não tem nada desses monstros. Eu te conheço, eu sou sua mãe. Posso não ser a sua mãe biológica, mas você é minha filha e eu conheço seu coração, sua índole.

A minha infância inteira começou a fazer sentido. O porquê da minha mãe me olhar com tanta escrutinização. O motivo dela me controlar tanto e ter me criado com tantas regras e tantas histórias com tantas lições de moral…Era porque ela tinha medo de eu ter alguma coisa do meu pai de verdade, do homem que estuprou a minha tia. E, depois, quando ela percebeu que eu não era agressiva, que eu sentia empatia – lembro dela observar meu comportamento com animais e elogiar justamente essa emoção – o pânico dela começou a ser sobre eu demonstrar interesse em meninos, começar a querer ir à festas, enfim, virar adolescente. Ela não queria que a história se repetisse, que algum menino me machucasse como machucaram a Tia Sil.

– Filha, o que eu quero que você entenda é que isso não muda nada sobre você. Eu sou sua mãe. Você nasceu para ser minha filha. Eu nasci para ser sua mãe. Bashert. Predestinado..

Eu fiquei quieta por um momento, pensando em tudo que eu tinha ouvido. Peças continuavam a se encaixar na minha mente, mas algumas coisas ainda não faziam sentido para mim. A Tia Sil disse que soube que eu era filha do Alexandre quando ela viu minhas sobrancelhas, mas ela já tinha visto meu rosto na câmera, em fotos. De repente a semelhança ficou clara quando ela me viu de perto, mas e se ela estivesse errada? E se meu pai biológico fosse outro homem? E será que esse homem, seja lá quem fosse, sabia quem eu existia? Será que ele tinha machucado outras mulheres? Ele era judeu também ou eu tinha sangue goy? Será que ele tinha outros filhos? Mas eu também percebi uma coisa:

– Eu sei. Eu sei que eu sou sua filha.

E aquilo era verdade. Eu sabia mesmo. A minha mãe biológica era a Tia Sil, mas a minha mãe era a minha mãe. Nada no mundo poderia mudar isso, nem mesmo aquela história de terror.

Minha mãe deve ter percebido a convicção na minha voz porque ela respirou aliviada. Ela também notou que minha mente estava dando voltas e falou:

– Você deve ter muitas perguntas.

– Sim.

– Eu quero que você entenda que a sua Tia Sil ama você. Ela sempre amou. Mas ela era uma criança quando descobriu que estava grávida, tinha apenas dezessete anos. Seu pai e eu queríamos tanto ter filhos, mas isso não era possível para ele. E o que aconteceu com ela foi uma tragédia, foi algo horrível, mas também foi algo que trouxe você ao mundo, às nossas vidas. E eu sempre serei grata por ter você. Sua Tia Sil não queria que eu contasse a verdade para você porque ela ainda sente muita vergonha de tudo que aconteceu, mesmo não sendo culpa dela. E eu guardei o segredo dela durante muitos anos. Nossos pais nunca souberam o que aconteceu com ela aquela noite. Eles achavam que você foi fruto de uma noite de amor irresponsável, mas consensual. Mas eu não poderia mentir para você. Você está se tornando uma adulta e tem o direito de saber a verdade, eu vejo isso agora. Eu tinha tanto medo de você descobrir…

– Você queria me proteger. Eu sei disso, mamãe.

– É. O trabalho de uma mãe é proteger sua cria. Mas você está crescendo. Eu preciso me conformar com isso. E talvez sabendo disso você possa tomar ainda mais cuidado.

– Eu já tomo, mãe. Você pode ficar tranquila. Você me criou bem.

Minha mãe sorriu. Era um sorriso triste, porém conformado. Eu tinha amadurecido na frente dela e isso era doce, mas também amargo. Acima de tudo, era real. Era verdade. E todas nós precisávamos de uma boa dose de realidade nas nossas vidas.

– Mãe, você mal deve ter dormido. Vai para a cama.

– Mocinha, eu disse que você estava se tornando uma adulta. Mas ainda é meu trabalho cuidar de você e não o contrário.

Eu abri um sorriso bem grande. Depois de ter ouvido a voz dela tão abatida foi gostoso ouvir a minha mãe com ar de autoridade. Naquele momento, eu percebi a sorte que eu tinha de tê-la como minha mãe. Apesar das imperfeições, eu não mudaria a minha infância. Eu cresci com estabilidade, estrutura e, principalmente, com muito amor. Minha mãe sempre foi disciplinadora, obcecada com o Matza e com histórias da nossa família, mas isso me tornava parte de algo maior do que eu, parte de uma família de verdade. O que mais eu poderia querer?

– Mãe, quando a Tia Sil acordar você avisa a ela que eu quero conversar?

– Aviso sim, meu amor. E vou explicar a ela que eu contei a verdade toda para você.

– Você acha que ela vai entender?

– Vai, sim. Ela mesmo falou ontem que tinha horas que ela queria confessar tudo para você. Ela também disse que tinha coisas da vida dela que eu não sabia e que ela queria contar para nós duas.

Eu senti um arrepio com a ideia de mais notícias desconhecidas.

– Você tem ideia do que poderia ser?

– Certamente nada tão drástico como o que eu te falei agora. Ela disse que é algo sobre o trabalho dela. Não prestei muita atenção. Ela também falou que pensava em se mudar de volta para o Brasil.

Eu pensei sobre isso por alguns momentos. Ontem, a possibilidade de ter a minha Tia Sil morando perto de mim teria sido divertida. E hoje? Eu não tinha certeza, mas era certamente mais complicada, embora não necessariamente ruim.

– Eu preciso dormir antes de ouvir qualquer outra novidade, mãe.

– Eu também, filha…Eu também.

Sem falar outra palavra, minha mãe e eu fomos até o quarto dela e eu fiz algo que não fazia desde pequena: deitei do lado dela na cama e coloquei as duas mãos nas bochechas dela, uma mania minha de infância. Eu não sabia o que a Tia Sil iria me contar quando eu acordasse. Não sabia se ela iria mesmo se mudar para perto de nós, onde exatamente ela iria morar e como seria o nosso relacionamento. Mas eu sabia que minha mãe estava do meu lado e que isso sempre seria verdade.

FIM

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.***

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

(FIM)

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Um comentário em “O Restaurante (uma obra de ficção) – Parte III

  1. Letícia
    22 de outubro de 2014

    Chorei. De novo.

    Curtir

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Publicado em 22 de outubro de 2014 por em Ficção Afiada.
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