Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

O Restaurante (uma obra de ficção) – Parte II

matza

Parte II 

Sílvia

 

– Your break has been over for nearly five minutes, Silvia. A hostess can’t step away for so long[1].

Meu supervisor estava me olhando de cara feia quando eu desliguei o telefone com a Mariane. Aquela parecia ser a única cara que ele tinha. E minha reação foi a mesma de sempre, abri um sorriso e fingi que não ouvi o comentário ríspido da vez. Caminhei até a frente do restaurante para receber novos clientes com o mesmo sorriso e atitude bubbly que os americanos tanto amam em seus funcionários.

Às vezes quando eu falo no telefone com a Mari eu esqueço da realidade que eu vivo e começo a acreditar no folclore que eu contei para minha irmã. Por alguns momentos, eu sou a estrela de uma série de televisão local, com uma sólida base de fãs e um slot de uma hora por semana no prime time. Ao me olhar no espelho, eu não vejo algo tão diferente. Sim, meu rosto já tem algumas linhas. Eu não sou mais uma moça, mas, aos trinta e dois anos de idade, eu sei que continuo muito bonita. Hoje em dia, eu preciso seguir um rigoroso regime de beleza e cuidados para manter a minha cintura, o brilho da minha pele e a firmeza do meu corpo. Mas tudo vale a pena quando percebo os olhares de homens e mulheres ao andar na rua. Às vezes eu saio para caminhar simplesmente para ver os outros me admirando, as mulheres certamente se perguntando o que eu faço para ficar tão atraente e os homens querendo saber o que eles precisam fazer para ter uma mulher como eu ao seu lado.

Nunca me faltaram pretendentes. Essa beleza que eu amo ter, que eu agarro com unhas e dentes porque temo que ela seja a soma de tudo que eu sou, já me trouxe muita coisa boa na vida (e eu tento não pensar nas coisas ruins). Mas existe uma realidade que somente mulheres que nasceram privilegiadas com um certo nível de beleza entendem. Sim, homens desejam mulheres lindas. Mas não basta ser deslumbrante para conseguir um excelente marido. As supermodelos conseguem porque elas tem beleza e fama, beleza e uma carreira, beleza e prestígio. Tem esse “e” que eu não tenho.

Talvez se eu tivesse feito escolhas diferentes…

Quando eu cheguei em Nova Iorque, com dezoito anos recém completados, eu tinha a certeza de que eu conseguiria ser modelo. Meu cabelo levemente ruivo, auburn como todos os scouts chamavam, sempre fazia sucesso. Minha pele clara fazia muitos duvidarem que eu era brasileira, mas minha simpatia e jeito extrovertido eram o suficiente para convencê-los. E, é claro, meu olhos, verde amarelos, como os de um felino, eram considerados “hipnotizantes”. Mas os elogios não duravam muito. Segundo após notarem minhas qualidades – quando notavam – começava a saraivada de críticas. Eu era muito baixa. Meu andar não era acentuado o suficiente para eu poder desfilar. Eu não sabia posar. Já o meu rosto era marcante demais para ser comercial, ele não permitia aquele girl next door look. Até já ouvi, de um infeliz antissemita, que meu nariz era “judeu” demais.

Eu tinha ouvido as histórias das supermodelos que eram rejeitadas diversas vezes antes de finalmente decolarem e se tornarem famosas e reconhecidas. Sabia que era uma indústria difícil, competitiva e agressiva. Tinha aprendido que as modelos que eram finalmente recompensadas eram justamente as que não desistiam. Então, eu estava preparada para ser rejeitada, talvez até preparada demais. Parte de mim também achava que eu tinha que sofrer um pouco por causa do que eu tinha feito, como se a vida estivesse me castigando pelo pecado que eu cometi. Aguentei as rejeições, me permitindo chorar apenas dentro do banheiro do apartamento de um quarto que eu dividia com cinco outras meninas. Os choros tinham que ser rápidos, eficientes. Eram muitas garotas querendo usar o banheiro.

Quando eu finalmente me conformei de que eu não seria a próxima grande modelo brasileira a cair no gosto dos americanos e do mundo, eu já tinha vinte e quatro anos, uma anciã para o mundo da beleza. Já tinha morado em oito apartamentos diferentes, feito novas amigas e discutido com muitas outras. E também tinha rejeitado diversos pretendentes, inclusive dois pedidos de casamento de homens que mal me conheciam, mas que juravam que iriam me dar uma vida de princesa.

Eu preferi arriscar a sorte sozinha do que me permitir acreditar em promessas de amor. Eu tinha aprendido a não confiar nas palavras de homem algum.

Mas eu não quis desistir por completo. Eu tinha prometido para mim mesma que eu seria uma estrela, independente e, principalmente, famosa! Baruch Hashem! Fiz o que a maioria das wannabe modelos fazem e fui tentar ser atriz. Usei o pouco de dinheiro que eu tinha juntado como garçonete em Manhattan e comprei uma passagem de avião para Los Angeles.

A minha trajetória como aspirante a atriz foi igual a minha como modelo, mas com competidoras com muito mais silicone, lábios artificiais e cabelos loiríssimos, o que é típico daquela região da Califórnia. Recebi os usuais convites para estrelar em filmes pornográficos, é claro, mas jamais os aceitei. Àquela altura, meu inglês já estava muito melhor do que quando eu desembarquei em Nova Iorque, mas meu sotaque ainda era carregado, o que me atrapalhava durante as auditions.

Demorou quatro anos para eu desistir de ser atriz. Eu tinha acabado de sofrer mais uma rejeição, daquela vez para um papel em um filme que eu tinha certeza que eu conseguiria e resolvi ligar para minha irmã. O rosto dela na câmera do Skype, cheio de pena, mas também de impaciência, foi o que me fez ter a ideia de criar uma ficção em volta da minha vida.

A Mariane nunca entendeu o porquê de viajar para outro país para tentar realizar um sonho notoriamente difícil. Eu já tentei explicar para ela que era óbvio que ela jamais conseguiria compreender, afinal, apesar de sermos irmãs, nossas infâncias tinham sido completamente diferentes. A Mari foi criada como a herdeira do Matza.

Desde cedo, meu pai percebeu que minha irmã tinha um ávido interesse sobre tudo relacionado ao restaurante, fosse a logística, a estrutura de funcionamento, a importância da fidelização dos clientes, a necessidade da padronização de receitas, fosse a história, a importância da comida e das refeições no judaísmo, a relevância da prática kasher. Ao ouvir os dois falar sobre o Matza, a única conclusão lógica seria que ele era um império, uma grande cadeia de restaurantes, e não apenas uma casa em Ipanema com vinte e três mesas.

Meus pais sempre presumiram que eu não tinha paciência para aprender mais sobre o negócio da família, mas isso nunca foi verdade. O problema era que quando eu alcancei uma idade em que eu tinha capacidade de começar a entender e ajudar, a Mariane, quatorze anos mais velha do que eu, já tinha aprendido tudo. Não havia espaço para mim. Eu passei a minha infância inteira ouvindo sobre como ela era disciplinada, metódica, organizada e aplicada. Ouvia que, quando ela tinha a minha idade, ela não tinha tempo ou interesse para as “coisas bobas” de adolescentes como flertes e danças da escola. E é claro que ela não tinha porque ela nunca teve fome.

Todos nós nascemos com uma fome dentro de nós que não pode ser saciada com comida. Falo de uma fome de ter sua existência validada de alguma forma. A Mariane sempre teve a dela saciada. Ela tinha um propósito na vida: herdar o Matza. Ela sempre soube a hora que ela iria acordar, a rotina que ela teria, a responsabilidade que ela iria assumir. Meus pais presumiram que eu gostava de ter uma vida menos regrada, mais imprevisível, mas a verdade é que nunca alguém me perguntou o que eu queria. Eu ouvia constantemente que eu era a ovelha negra da família, muito bonita e aventureira. Eles simplesmente concluíram que, por eu ser diferente da Mari, o Matza era algo que não me interessava. E eles me excluíram, certamente sem maldade, do restaurante.

Como toda boa adolescente rebelde, eu aceitei esse rótulo, vestindo uma armadura cínica e debochada. Decidi que se eles não me queriam no Matza, então a recíproca seria verdadeira. Eu fazia questão de comentar sobre como o movimento estava fraco, inventava que tinha ouvido reclamações de clientes e elogiava os restaurantes que eu frequentava quando saia com os pais das minhas amigas, dizendo que o Matza não chegava aos pés dele.

Não demorou muito para eu incorporar um personagem que era o exato oposto da Mariane. Se ela usava cores sóbrias e roupas práticas, eu valorizava minha silhueta magra com roupas mais chamativas. Se ela tinha um jeito mais quieto, eu adorava fazer piada, mesmo sabendo que todos estavam rindo de mim e não comigo. Quando o marido dela viaja a trabalho, ela, como uma boa filha, ia até a casa dos meus pais para comer e assistir a um filme e, para não ser excluída da conversa porque o assunto era sempre o Matza, eu fazia questão de marcar algo com minhas amigas para mostrar que eu tinha vida social, que havia pessoas que queriam minha companhia. Me tornei popular na escola, tinha vários amigos, todos os meninos queriam namorar comigo. Essa parte acabou sendo ruim, é claro. Bem ruim. Mas eu procuro não pensar nisso.

A questão é que eu não minto para a Mariane porque eu tenho um desvio de personalidade. Eu minto porque ela não me deu outra escolha. Eu não tinha mais como ver o julgamento no rosto dela toda vez que eu ligava para o Brasil e contava que meu big break ainda não tinha acontecido. Desde que tomei a decisão que mudou as nossas duas vidas para sempre, eu passei a poupar a minha irmã. Então, ela nunca soube das piores partes da minha busca pela fama, eu nunca contei dos diretores que tentavam me levar para a cama, dos falsos produtores de cinema que queriam me enganar dizendo que eu cairia como uma luva numa personagem em um filme deles e dos que me diziam que eu estava velha demais, mesmo quando eu ainda tinha 27 anos. Ela nunca pareceu entender como essa indústria era difícil, como são pouquíssimas que conseguem algum sucesso, mesmo tendo muito talento e muita determinação.

Então, eu escolhi ficar famosa, pelo menos localmente, pelo menos no meu imaginário. Há quatro anos, me mudei para Seattle. Acredite ou não, o que me atraiu na cidade foi justamente o tempo chuvoso. Minha antiga colega de quarto tinha um professor que dizia que a chuva significava renovação e eu decidi recomeçar minha vida numa cidade onde a água cai dos céus com abundância. Durante quase quatro anos, tive um bom emprego em um centro de logística de uma das gigantes da tecnologia sediada aqui.

Cheguei a ter uma posição como supervisora e preferi não pensar que essa promoção ocorreu porque eu estava namorando o gerente da área às escondidas. Ele me disse que estava se separando da mulher e, pela primeira vez em mais de uma década, eu senti que estava começando a me interessar por um homem, que eu estava aprendendo a derrubar a muralha que eu ergui em volta de mim quando eu era jovem. Cheguei a me permitir sonhar com um futuro, com uma família. Mas D´us me mostrou meu erro a tempo. Aprendi que meu chefe não só não tinha a menor intenção de se divorciar de sua mulher, como também estava tendo um caso com outra mulher da nossa equipe. Quando o RH da empresa ficou sabendo, negociamos um acordo para eu não processar o infeliz e a empresa por assédio sexual. Ganhei uma quantia bacana e agora tenho um pé de meia, mas perdi meu emprego e não consegui outro similar até agora. Ironicamente, para não ficar parada, aceitei trabalhar em um restaurante, como hostess.

Essa é a minha vida de verdade. Mas, para a Mariane, eu sou atriz de um seriado local que é transmitido somente aqui em Seattle. Aliás, sou a estrela! Tenho que agradecer a total falta de conhecimento tecnológico da Mari, que até hoje não se tocou que, se o seriado fosse esse sucesso todo que eu digo que é, ela teria como ver algum episódio, nem que fosse pelo You Tube. A Camilla está crescendo e já me pediu para enviar fotos autografadas minhas e souvenires do estúdio. Não vai demorar muito para ela tentar achar o seriado estrelado pela tia dela e se tocar que é tudo uma grande mentira. Acho que o seriado vai ter que ser “cancelado” em breve. Mas eu aprendi a viver um dia de cada vez, então isso não é um problema para hoje.

Agora era o momento de focar na Camilla. Com o dinheiro do acordo, pude comprar uma passagem para o Brasil com tranquilidade. Eu passei o resto do dia trabalhando numa espécie de piloto automático. Minha mente só conseguia pensar que eu iria finalmente rever a Camilla, depois de tantos anos. Ao embarcar no avião, uma semana depois de ter falado com a Mariane por telefone, eu mal conseguia controlar minha ansiedade.

Tentei manter a calma, mas, como de costume, bastou eu sentir qualquer emoção intensa, que as memórias do meu passado começaram a vazar dentro da minha mente. O dia em que tudo mudou era como um grande marco na minha vida. Era meu “antes e depois”. E dividir espaço nos meus pensamentos com esse fantasma e com a Camilla só me causava mais medo, mas também me dava forças para ir ao Brasil e conviver com ela. Eu não tinha dúvidas de que a Mariane era uma excelente mãe, mas a Camilla estava alcançando uma idade perigosa, onde tudo poderia mudar e estava na hora de nós termos um relacionamento mais próximo.

Afinal, uma filha precisa conhecer sua mãe.

(Continua…)

[1] Seu intervalo acabou há quase 5 minutos, Silvia. Uma hostess não pode ficar longe por tanto tempo.

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.***

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

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Um comentário em “O Restaurante (uma obra de ficção) – Parte II

  1. Anna
    17 de outubro de 2014

    Escreve logo o final!! muito curiosa! A Camilla sabe???

    Curtir

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Publicado em 17 de outubro de 2014 por em Ficção Afiada.
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