Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

O Restaurante (uma obra de ficção) – Parte I

matza

Parte I 

Mariane

Eu aprendi muito do que sei sobre comandar um restaurante com meu pai. Aprendi a receber clientes com um sorriso caloroso, porém discreto. Aprendi a fazer as principais receitas e, principalmente, a supervisionar seus preparos. Aprendi a separar as louças de acordo com a prática kasher. Aprendi a fazer contas, a recompensar os garçons mais dedicados e a oferecer cardápios enxutos em datas com muito movimento. Da minha mãe, aprendi que a dona de um restaurante não deve usar salto alto, pois ela ficará em pé o dia inteiro. Aprendi que devemos evitar usar cores claras porque, invariavelmente, molhos irão cair em nossas blusas. E aprendi que devemos programar nossos estômagos para ter fome, ou muito antes, ou muito depois do último cliente.

Mas teve algo que eu aprendi sozinha, com a minha própria experiência. Aprendi que as pessoas se revelam quando estão comendo. Elas pensam que os que estão ao seu redor, quer os ocupantes das mesas ao lado, quer os garçons, são invisíveis. Mostram suas manias, falam dos assuntos mais pessoais, citam nomes completos, fatos com riqueza de detalhes, confessam segredos. Por isso, ser dona de um restaurante é um pouco como ser rabino, nós ouvimos desabafos pessoais, mesmo que inadvertidamente. Com isso, aprendi a importância da discrição, o que é bem útil para alguém como eu, alguém que guarda um segredo tão grande.

O restaurante é mais do que minha herança, é meu legado. E, como tal, tem horas que ele tem um peso indesejável, quase de um fardo e certamente de uma obrigação puxada. Mas também tem horas que ele é minha maior fonte de orgulho, um pedaço imóvel da história da minha família, do meu povo, da minha religião. Bem, meu segundo maior orgulho. Porque o primeiro é a minha filha.

A Camilla ainda não aprecia o restaurante. Quando eu peço para ela me ajudar, seja recolhendo pratos de sobremesa de uma mesa que acabou de se retirar, seja dando apoio aos cozinheiros, ela torce o nariz. Ela me obedece, é claro. Nos seus quatorze anos de vida, ela já aprendeu que uma filha deve obediência à mãe. Mas esses gestos vem acompanhados de suspiros, ou de uma virada de olhos e, às vezes, de um “Ai, que saco, mãe!”. Eu tento ter paciência, lembro a mim mesma da genética que ela carrega, tanto para o bem, como para o mal. Também procuro ponderar que vivemos em outra época, a época do “iTudo”, onde crianças tem vozes e são encorajadas a ser expressivas porque isso as ajudará a sobreviver num mundo conectado por um sinal de internet invisível. Mas é difícil.

Falando assim, parece até que eu sou idosa. Não é o caso. Tenho 46 anos, o que está longe de ser uma senhora, mas, de acordo com meus pais, eu sempre tive um temperamento de alguém mais velha, o que significa que eu tenho pouca tolerância para as idiossincrasias de uma adolescente. Minha mãe dizia que toda geração tem os mesmos problemas, que criança é sempre criança e adolescente é sempre adolescente, não importa a época. Ah, se ela estivesse viva! Eu adoraria poder lhe mostrar como os tempos mudaram. Eu vejo pela Camilla e também pelas amigas dela. As adolescentes de hoje se percebem como mulheres, mas têm verdadeira repulsão às obrigações de uma adulta. Antigamente, nós queríamos, sim, ser mais velhas, mais crescidas, mais sabidas. Mas entendíamos que, para isso, era necessário estudar, se aplicar, ajudar no negócio da família ou, ao menos, casar com alguém sério e trabalhador. Essa geração quer tudo sem dar nada em troca. E todo artigo que leio sobre isso – e não são poucos – me diz que a culpa é dos pais, que nós precisamos impor limites e não dar tudo de mão beijada. Gostaria de convidar os senhores autores dessas reportagens a conhecer minha filha e a criação que ela teve! Mais rígida do que eu fui (e ainda sou), impossível.

A Camilla sempre teve a obrigação de estudar e de ajudar no restaurante. Quando ela ousou afirmar que isso seria trabalho infantil, eu levantei minha sobrancelha e disse a ela que, se algum dia eu ouvisse tamanha bobagem novamente, eu mostraria a ela o que era trabalho infantil de verdade. Ela entendeu o recado. Desde pequena, eu faço questão de lhe mostrar como funciona o negócio fundado pelo meu pai em 1946. Não era uma época fácil para os judeus no Brasil. Mas, pensando bem, quando foi uma época fácil para nosso povo? Mesmo assim, meu pai conseguiu construir um pequeno refúgio para nós e para todos aqueles que desejavam degustar a culinária judaica no Rio de Janeiro. Pensou em bureka, falafel, varenikes, challah, gelfite fish ou cholent? Pensou no Matza!

O papai contava que ele sabia que o restaurante iria agradar a comunidade judaica que estava se estabelecendo em Ipanema com mais esperança após o final da segunda guerra mundial, mas ele jamais imaginou que iria fazer tanto sucesso entre os goys. E, diferentemente do que muita gente presumiu, ele ficou tão orgulhoso de poder dividir as receitas que eram da mãe dele (e, certamente, da mãe dela e assim por diante) com pessoas de outras fés. Podem falar o que quiserem sobre nós, os judeus. Mas sempre fomos inclusivos. Não vamos procurar converter os outros (sempre achei essa prática de péssimo tom, por sinal), mas se alguém quiser conhecer mais sobre nossos costumes, nossa língua, nossa origem e, é claro, sobre nossa comida, essa pessoa será muito bem recebida.

Não vou mentir, quando eu conto essas histórias para a Camilla, meu coração se enche de orgulho. Quando ela era pequena, ela parecia gostar de ouvir as histórias, ou pelo menos tolerá-las. Ela nunca foi como eu, que subia no colo do meu pai e pedia para ouvir a história do nosso povo e, principalmente, a história do Matza. Mas ela também não agia como agora, declarando que ela já ouviu isso “um milhão de vezes” e que eu estou ficando repetitiva na minha “velhice”. Ela fala assim mesmo, “velhice”.

A Camilla chegou na minha vida quando eu já havia desistido da ideia de ter filhos. Mas quando eu a peguei nos meus braços pela primeira vez eu entendi que todos aqueles anos até a chegada dela tinham sido apenas um treino, um ensaio para o grande papel da minha vida: ser mãe. Eu tinha acabado de perder meu marido e havia me contentado a viver uma vida autossuficiente, independente e, admito, só. Mas ela mudou tudo. Ter uma herdeira para o Matza me deu ainda mais fôlego para o manter aberto, cheio de vida.

Ser dona do Matza me traz muita felicidade. Tenho orgulho de ter atualizado o cardápio com o passar do tempo, mas sem perder a base das receitas da minha família. Quando o restaurante foi inaugurado, meu pai só admitia fazer pratos da forma kasher. Até que eu o convenci a me deixar montar um cardápio livre, especial para o jantar em comemoração aos meus vinte e um anos de idade.

Nos dias antes do evento ele rondava a cozinha, sempre com o pretexto de conferir se o gelfite fish estava sendo feito com a quantidade certa de molho de rábano vermelho, uma preocupação absolutamente desnecessária, já que os cozinheiros eram tão presos à forma do meu pai de fazer as coisas quanto ele. Quando ele viu que eu estava preparando um molho a base de queijos para servir junto com carne, eu imaginei, por um momento, que ele fosse ter um ataque cardíaco (ou, talvez, causar um em mim). Mas o papai sempre foi um homem de palavra. Ele disse que me daria total liberdade com o menu dos meus convidados naquele dia. Afinal, não era sempre que sua filha mais velha comemorava o que era, à época, a maioridade.

O cardápio preparado por mim com a ajuda dos cozinheiros (com direito a olhos arregalados de muitos deles) foi um sucesso com meus convidados. Eles comeram com tanto gosto que a mesa ao lado perguntou ao garçom onde estava aquele filé mignon com nhoque ao molho de queijos no cardápio. Papai sempre foi um judeu observante, respeitoso da sua religião. Nunca foi ortodoxo, usava bermudas e nunca teve barba, embora ele usasse kipah na sinagoga e preferisse morrer do que ver a filha dele namorar um goy. Mas naquele dia ele entendeu que o Matza precisaria evoluir e me promoveu a gerente geral do restaurante. Em menos de um ano, mudamos as palavras da placa do Matza de “Culinária Judaica” para “Culinária Judaica e Contemporânea”. Hoje em dia servimos até camarão e porco!

Ser uma mulher de negócios e mãe ao mesmo tempo não é fácil, mas eu nunca reclamei (em parte, porque eu nunca tive tempo de me lamentar). Minha avó dizia que os verdadeiros problemas da vida não começavam quando a gente tinha muito a fazer, mas sim quando nos faltava afazeres. Ela teve cinco filhos e os criou com muita educação e amor. Meu pai e os irmãos se referiam a ela, carinhosamente, como “o general”. Sempre achei que o gênero da expressão era a forma deles de dizer que era ela quem realmente mandava na casa onde eles cresceram. Sei que ela teria muito orgulho de ver o Matza ter sucesso, com filas na porta, livro de reservas lotado e clientela fiel. Mas às vezes me pergunto o que ela acharia da Camilla.

A Camilla é uma menina muito bonita. A vovó talvez dissesse que ela é bonita demais. Na opinião da então matriarca da nossa família, beleza demais em uma mulher pode ser um perigo. Uma descrição superficial da minha filha não revelaria grandes problemas com ela. Inteligente, boa aluna (ainda que, em grande parte, pela minha insistência diária que ela se aplique), razoavelmente educada, a Camilla fala duas línguas muito bem e até optou por celebrar seu Bat Mitzvá quando ela completou 12 anos de idade. O fato de ela ter tomado essa decisão, principalmente, porque ela sabia que iria receber presentes dos convidados em forma de moeda corrente nacional, não causaria má impressão com minha avó. Ela sempre foi uma senhora pragmática.

Os problemas talvez surgissem se fossemos fazer uma análise mais profunda da personalidade da Camilla. Apesar de ela negar, eu já percebi que ela é popular na escola, o que iria gerar uma certa desconfiança na minha avó. Ela sempre demonstrou interesse demais em meninos (ela colocou um pôster do Justin Bieber na parede do quarto quando ela tinha apenas dez anos de idade) e ela é falante e extrovertida demais. Tudo isso poderia ser percebido pela minha avó e aceito como algo da nova geração. Agora, o que a Vovó Sara jamais teria admitido, sob hipótese alguma, é a indiferença que a Camilla parece sentir pelo Matza. Meshugas!

Eu sei porque ela não admitia essa mesma indiferença na minha irmã, a Sílvia.

Eu estava justamente pensando na minha irmã e na complicada história que nos une quando o telefone tocou. Era a Sílvia, entre o intervalo de uma gravação e outra, me ligando para dizer que ela queria presentear a Camilla com uma festa de quinze anos.

Poucas coisas me tiram do sério. As pessoas me descrevem como alguém calma, ajuizada, até mesmo sisuda. Não tenho um tipo físico delicado, sempre fui mais cheinha e, talvez por isso, sempre me vesti de forma conservadora. As cores do meu guarda-roupas são cinza, preto e, muito de vez em quando, um azul marinho ou verde escuro aparecem no mix. Meus traços não são diminutos, não tenho um nariz pequenino ou uma boca delicada. Meu marido dizia que ele se apaixonou por mim porque eu não era “uma mulher boba e frágil”. Não tenho paciência de usar maquiagem ou de pintar meus cabelos e tenho orgulho de poder envelhecer com dignidade. Encaro meus fios brancos como um sinal do privilégio que é poder envelhecer. Faço parte de um povo que já teve esse direito alienado com frequência demais para não ser grata por isso.

Mas ouvir a minha irmã falar da minha filha como se ela a conhecesse, como se ela tivesse algum tipo de direito à Camilla, ah, isso sim me tira do sério. Festa de 15 anos?

– É! Eu tenho conversado com ela e, bem, você sabe que várias amigas dela vão comemorar os quinze anos e eu acho que ela iria gostar de poder fazer o mesmo.

– Ela já teve o Bat Mitzvá dela, Sílvia.

– Mas isso foi há quase três anos!

– Sim, mas na nossa religião a menina inicia a fase adulta aos 12 e não aos 15.

– Tá bom, Mari. Então, já que ela já é uma adulta há tanto tempo, que tal deixar ela decidir?

Às vezes eu penso que a Sílvia me deixa irritada para que eu perca meu foco e caia em armadilhas como essas. Quando éramos crianças, ela fazia isso o tempo todo. Ela sempre foi a irmã magra, a filha mais bonita, a mais divertida. “Não leve a vida tão a sério, Mariane,” era o que ela dizia sempre, fazendo todos rirem à mesa. Todos gargalhavam com os comentários inusitados e leves da Sílvia! Como se a forma irresponsável dela de viver a vida fosse modelo para alguém.

Ela desligou o telefone antes que eu pudesse protestar, mas não sem antes anunciar – a Sílvia não faz perguntas, ela faz declarações – que ela iria chegar no Brasil na próxima semana. Era só o que me faltava. Como se não bastasse a minha preocupação com a Camilla, agora eu precisaria administrar a presença da Sílvia perto dela. Quando minha filha era apenas um bebê, minha irmã dizia que a Camilla “só chorava e fazia cocô o dia inteiro” e não demonstrava interesse algum em ser tia ou qualquer outra coisa. Agora, depois de quase 15 anos sem nos ver, ela queria fazer parte da vida da minha filha. A tia glamorosa, com o trabalho exótico, morando nos Estados Unidos há tempos. Como se a Camilla já não fosse impressionável o suficiente, agora eu teria que lidar com mais essa.

Eu desliguei o telefone irritada, é verdade. Mas esse sentimento ocupava uma pequena fração do meu coração. O real sentimento, aquele que habitava meu peito e que não parecia que iria embora tão cedo, era medo.
Medo, não. Pavor, temor, pânico mesmo.

Pânico dela estar vindo para revelar o nosso segredo.

(Continua…)

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.***

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

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Um comentário em “O Restaurante (uma obra de ficção) – Parte I

  1. Fabiana
    15 de outubro de 2014

    Adorei, Fe!!! Publica logo a segunda parte!!!! Bjão!

    Curtir

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Publicado em 15 de outubro de 2014 por em Ficção Afiada.
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