Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

A Beleza do Presente

vovo3

Há várias características que eu admiro na minha avó. Ela é inteligente, forte, corajosa, madura, cheia de fé, sábia e ponderada. Eu conheço muitas pessoas, especialmente mulheres, que têm várias dessas características. Mas existe uma qualidade específica que, para mim, só minha vovó tem…

Desde que me entendo por gente, tenho uma ligação especial com a minha avó. De todas as pessoas mais velhas da minha família sanguínea, é ela quem mais me percebe, quem mais me entende. Eu era uma criança reservada sobre meus próprios medos e problemas, em parte por insegurança, mas também por achar que meus pais não entenderiam o que se passava pela minha mente porque eu os considerava pessoas muito diferentes de mim. E, apesar de ter sido abençoada por Deus com uma irmã perfeita, sensível, inteligente e carinhosa, eu não gostava de dividir dificuldades com ela. Eu sempre encarei meu papel de irmã mais velha como sendo o de a proteger e não de adicionar preocupações à sua vida.

Minha avó sempre entendeu isso (além de um leque enorme de emoções minhas) sem que eu precisasse falar uma palavra sequer. E a sensibilidade dela não se limitava a identificar, no detalhe, as minhas emoções. Ela também sabia o melhor momento e a forma ideal de lidar com sua neta primogênita. Enquanto outros membros da minha família adoravam me rotular, traçar comparações presunçosas, classificar diversas atitudes complexas com comentários condescendentes do tipo “é só uma fase” e até mesmo presumir, no máximo do egocentrismo, que eles sabiam mais sobre o que eu estava sentindo do que eu própria (e, FYI, ninguém é psicólogo na minha família), minha avó sabia ouvir. Ela ouvia o que eu falava e, principalmente, ouvia o que eu não falava. Ela fazia perguntas sábias, contava histórias com mensagens relevantes e, acima de tudo, fazia com que eu me sentisse a pessoa mais importante do mundo para ela.

Eu já teria muita, muita sorte, se esse fosse o limite dos dons dela. Mas, além de tudo isso, ela também foi e continua sendo, uma presença positiva e refrescante na minha vida. Minha avó me traz paz.

A saúde dela é invejável. A vontade de viver, louvável. Ela não é uma avó com estilo faceto e alma jovem como muitas das avós de amigas minhas. Ela sempre teve um jeito discreto, circunspecto, responsável, que inspirou respeito, até porque ela teve uma infância e adolescência dura e repleta de tribulações. Minha avó nunca foi de usar gírias ou de entrar na piscina para fazer bagunça com os netos (coisas que nunca me fizeram a menor falta, mas eu entendo que deve ser divertido ter uma avó brincalhona). Mas a sua leveza se manifesta na forma inteligente e positiva como encara a vida.

Já ouvi elogios a respeito da minha avó das mais diversas pessoas. Certa vez ouvi “sua avó é a idosa que eu gostaria de ser um dia”. A sociedade tende a caracterizar pessoas idosas como “reclamonas”, cheias de manias, intransigentes e mal humoradas. Como muitos estereótipos, existe um motivo para isso. É que muita gente velha fica chata mesmo! Mas quando alguém convive com a minha avó, eles percebem como é incrivelmente fácil estar perto dela. Considerando que ela tem quase 90 anos de vida, isso é algo extraordinário (eu tenho 30 e estar perto de mim é um desafio!).

Eu – neta coruja e orgulhosa, com toda razão do mundo – sempre soube que minha vovó é o máximo. Mas nunca tinha decifrado o que a faz ser assim. Até que, recentemente, matei a charada…

Eu adoro almoçar com a minha avó. Temos um ritual onde provamos novos restaurantes de tempos em tempos. Certo dia, fui buscá-la na casa da minha mãe, que fica no alto da Gávea, bairro localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro. Na ocasião, a rua dos meus pais tinha sido “invadida” por carros e vans (algum ser humano simpático que super vai para o céu causou esse desagradável transtorno), então foi complicado conseguir parar o carro. Além disso, a rua, que é bucólica e não aguenta o volume de tantos carros pesados parados ao mesmo tempo, estava tendo algum problema na rede de esgoto. Para finalizar, me atrasei e cheguei para buscá-la no meio do horário da saída das escolas na Gávea (quem conhece a região sabe que descer a Rua Marquês de São Vicente às 12:10 é tão frustrante quanto tentar colocar linha em agulha de olhos vendados).

Quando minha avó me viu, os olhos dela brilharam. Ela parou de andar para dizer que eu estava linda, que meu cabelo estava ainda mais sedoso e que ela tinha muito orgulho da neta elegante que ela tinha. E ainda completou: “todas minhas netas são lindas!” Até aí, bem normal. Que avó não acha a neta lindíssima, mesmo em dias que ela mal se arrumou?

Entramos no carro (vocês acham que ela reclamou do ângulo desconfortável? Claro que não!) e quando eu lembrei que ela deveria colocar o cinto de segurança – porque ela sempre esquece – ela falou: “bem lembrado, filhinha! Afinal, tenho muitos anos de vida pela frente, se Deus quiser!” Segundos após eu ligar o carro e começar a dirigir, ela comenta, cheia de ânimo: “Olha as flores dessa árvore! Como estão bonitas! E não tem chovido. Que bom que ela está florida!”

Alguns minutos depois ela exclama, ao ver construções, cimentos, tratores (ou sei lá qual seria o termo técnico para esses carros que dificultam o fluxo de veículos): “Que beleza essas obras! O progresso hoje em dia está em toda parte!” Quando eu tive que atender meu telefone e conferir algo na internet, ainda usando o mesmo aparelho, ela disse “Como é que pode? Hoje em dia, tudo é fácil! Que maravilha!” Quando eu pedi desculpas pelo atraso e comentei sobre o trânsito, ela respondeu “É mais tempo que passo com você, filhinha. Para mim é um prazer!”

Os elogios, francos e despretensiosos, de tudo e todos a sua volta continuaram ao longo da tarde que passamos juntas.

Eu não sei se minha narrativa está fazendo jus ao clima positivo e sereno da cena, semelhante a tantas outras, que testemunhei como neta da minha avó. Naquele momento eu tive uma epifania. Entendi o que faz minha avó ser essa pessoa que tranquiliza os que estão a sua volta, os envolvendo em um manto de positividade e conforto. Entendi porque ela sempre conseguiu me trazer aconchego, perspectiva e gratidão. Quando eu era criança, séria demais, rígida, assustada com certas coisas e teimosa com outras, ela conseguia. Quando eu era adolescente, dramática, chorona e sem qualquer tipo de senso de proporção, ela conseguia. E ela consegue fazer isso até hoje, com a adulta irritada, estressada, cínica e profundamente imperfeita que eu sou.

É porque a minha avó aprecia a beleza do presente. Em todos as ocasiões da sua vida, ela identifica e comenta o que há de bom naquele momento.

Ela não é uma Pollyanna irritante, do tipo que está sempre de bom humor sem motivo, cantarolando pelos cantos. Ela sabe criticar, sabe apontar pontos que precisam ser melhorados e tem opiniões muito bem formadas, algumas positivas e outras negativas. Mas ela também escolhe passar mais tempo falando das coisas boas que existem no agora do que sobre qualquer outro assunto.

Pensem comigo: a maioria das pessoas passa grande parte do tempo falando sobre o que? Sobre o passado ou sobre o futuro! Façam como eu fiz e comecem a reparar nas conversas das pessoas a sua volta, conhecidos e estranhos, de todas as idades. É impressionante como o que já passou e o que as pessoas especulam que estar por vir ocupa nossas mentes e nossos discursos. É claro que parte disso é natural, sobretudo em certas fases de vida. Quando somos jovens, uma parte significativa do nosso tempo deve ser dedicada ao planejamento do futuro. Quando somos mães, temos que tentar antecipar o que virá para nossos filhos. Quando somos mais velhos, é natural que relembremos nossos “dias de glória”. Tudo isso faz parte. E é claro que a minha avó fala de outras coisas. Ela conta histórias do passado, faz indagações sobre o futuro e até reclama de vez em quando, mas, ela é, principalmente, uma pessoa cujo etos é iluminado. Eu ouso propor que a razão disso é porque ela aprecia a beleza do presente.

Minha avó é a minha maior lição de vida. A única realidade das nossas vidas é o agora. Então, por que não viver o presente encarando-o como exatamente isso…Um presente?

Que sorte eu tenho de ter a minha avó!

vovo

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

Anúncios

3 comentários em “A Beleza do Presente

  1. Letícia
    26 de setembro de 2014

    Texto lindo que todos deveriam ler!!!

    Curtir

  2. chrispfisterer
    16 de outubro de 2014

    Fe! AMEI o texto! Escreveu muito bem e representou a vovo de uma maneira incrivel! Pura verdade, a vovo eh uma inspiracao para todos nos. Amo os comentarios positivos que ela sempre faz! Realmente nos traz paz e nos faz apreciar as coisas belas da vida. Quase ouvi a voz da Vovo quando li a parte que vc cita o que ela falava.

    Saudade de vcs!

    Bjs!

    Curtir

  3. Christina
    16 de outubro de 2014

    Fernanda, seu texto é tocante e me fez lembrar das minhas avós. Costumo dizer que amor de vó é doce. Hoje tenho 56 anos e você não pode imaginar o quanto lembro e ainda aprendo com tudo o que vivi com minhas avós. Felicidade para vocês.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 26 de setembro de 2014 por em Ponto de Vista.
%d blogueiros gostam disto: