Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

Sobre a Criminalização do Aborto

28 09 PELA LEGALIZAÇÃO ABBORTOaborto2-400x290

Venho ensaiando escrever esse texto há algum tempo, mas a seriedade do tema pede uma responsabilidade que vinha me amedrontando um pouco. Mas, como minha vontade de dar a minha opinião é maior que meu medo, cá estou.

Primeiramente, queria explicar que meu foco é a criminalização do aborto e não o ato em si. Acho que a decisão de terminar uma gravidez é tão radical e profunda que me manifestar sobre isso seria, no mínimo, leviano. Como nunca passei por uma gravidez, não me sinto apta a escrever sobre o aborto em si. Confesso que não consigo entender exatamente a sua proporção na vida de uma mulher.

Entretanto, tenho uma opinião bem definida sobre a criminalização do aborto. E sou totalmente a favor da DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO. É tão óbvia a necessidade de essa conduta deixar de ser crime que acho até difícil defender essa posição. Então, vou partir da pergunta contrária, por que criminalizar o aborto?

Muito dizem que é uma forma de assassinato, ou seja, de exterminar uma vida humana. Bom, existe até o argumento legal de que a vida humana, no ordenamento jurídico brasileiro, começa com o nascimento. Mas, vamos para o argumento moral. Quem defende essa idéia estapafúrdia realmente acha que aborto equivale a homicídio?

Façamos um exercício: imagina que uma amiga ou uma prima (ou seja, uma pessoa com a qual você possa cortar relações) chega para você e diz que vai te contar um segredo. Hipótese 1: ela diz que contratou um matador que assassinou o vizinho dela. Hipótese 2: ela diz que fez um aborto. Você reagiria da mesma forma? Du-vi-do!

Aposto que, na primeira situação, você cortaria relações, passaria a ter medo daquela mulher e, talvez, até a denunciasse para a polícia. Já, na segunda situação, não sei ao certo como você reagiria, mas, provavelmente, manteria seu relacionamento com ela, ainda que pudesse ficar mais distante, e, disso eu tenho quase certeza, sequer passaria pela sua cabeça a possibilidade de uma denúncia.

O que quero mostrar com essa simulação é que o aborto é socialmente aceito, ainda que passível de julgamentos negativos. Tanto o é que, na maioria das cidades grandes e médias, é de conhecimento comum a localização de clínicas onde é possível fazer o procedimento abortivo. Se, porventura, uma mulher não souber, é fácil descobrir consultando até mesmo médicos.

Aqui, chegamos a um ponto muito relevante da questão: a saúde das mulheres que fazem aborto. Quem pode arcar com os custos de realizar o procedimento em uma clínica particular, bem assistida por médicos, tende a ter uma recuperação mais fácil e rápida. Mas, isso tem um preço, que imagino ser relativamente alto e, sem dúvida nenhuma, muito alto para a maioria da população brasileira.

Então, se a filha da classe média ou da elite quer fazer um aborto, ela o fará nas melhores condições possíveis e sairá viva e bem de saúde. Já as mulheres das classes mais baixas, muitas com uma penca de filhos nas costas, recorrem a métodos “amadores” que vão de chás duvidosos a enfiar um cabide pela vagina, entre outras “técnicas”. Isso para não mencionar os “açougues” que realizam o procedimento abortivo em condições insalubres. Não é difícil imaginar o resultado disso: muitas mulheres morrem. Se você se interessar, achei um artigo muito elucidativo sobre o assunto aqui.

O que me parece bastante claro é que é muito fácil ser a favor da criminalização do aborto quando se tem um bom poder aquisitivo. Só me pergunto se é igualmente fácil saber que milhares de mulheres morrem, anualmente, por isso.

Aí, tem sempre um desavisado que diz que a criminalização do aborto contribui para a diminuição do número de mulheres que realizam esse procedimento. Espera um pouquinho porque eu preciso rir desse argumento antes de continuar…

Voltando, tenho MUITA dificuldade em acreditar que esses crédulos existem. Como disse, no início do texto, a decisão de acabar com uma gravidez é muito radical e profunda, mexe com a vida de uma mulher de formas que só quem teve essa experiência sabe. Somado a isso, você já ouviu falar de alguma mulher que tenha sido efetivamente denunciada e processada por ter realizado um aborto? O fato de aborto ser crime não desestimula ninguém a realizar um aborto. Mas, se você acreditar no caráter pedagógico da criminalização do aborto, talvez seja hora de escrever uma cartinha para Papai Noel.

Esclarecendo: ser favorável à descriminalização do aborto não significa propagandear esse ato como método contraceptivo, significa apenas ser a favor de que essa conduta deixe de ser crime. Mais: a descriminalização faz com que o assunto possa ser tratado de forma mais aberta, o que pode gerar um impacto positivo no número de abortos realizados.

Agora, se você me trouxer um argumento de ordem religiosa, porque Deus/Jesus/Alá/Maomé/Moisés disse… Só te dou um aviso: o Estado Brasileiro, graças a Deus (com perdão do trocadilho), é laico. Mas, olha, não esquece que usar camisinha e tomar pílula é pecado, tá?

Vale apenas ressaltar que Cristo veio ensinar o perdão e a compaixão. Atire a primeira pedra quem nunca pecou, lembra?

Não sei se você se convenceu de alguma coisa, espero que, ao menos, você reflita um pouquinho mais sobre o tema. Quanto a mim, sofro por ter que justificar o óbvio: a descriminalização do aborto deveria ter acontecido no século passado.

Escrito e publicado por Letícia

***Esse texto reflete apenas a opinião da sua autora, Letícia. As demais autoras desse blog não necessariamente concordam com o exposto acima.***

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor, entre em contato.***

aborto

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5 comentários em “Sobre a Criminalização do Aborto

  1. Fernanda Cecília
    25 de setembro de 2014

    Parabéns pelo post, Lê! Como sempre, muito bem escrito e inteligente. E você tem toda a razão. Não faz sentido criminalizar o aborto. A despenalização do aborto não o torna mais comum, apenas mais SEGURO.

    Ninguém discute que é muito importante prevenir. Distribuir camisinha, disponibilizar anticoncepcionais, enfim, conscientizar as pessoas é essencial. Mas anticoncepcional falha. “Ah, mas comigo nunca falou.” Parabéns. Mas você não representa o mundo.

    O feto é vida para muita gente (para mim, inclusive). E faz sentido que seja. Ninguém discute que interromper uma gravidez é traumático, doloroso, doído… ninguém vai usar o aborto a toa, ninguém vai usar como uma pílula anticoncepcional. Ninguém. Dói demais para isso.

    Mas obrigar alguém a ser mãe é errado. Obrigar alguém a colocar uma vida no mundo é errado. O Estado não pode legislar sobe meus direitos reprodutivos. Entre os dois males – o feto e obrigar alguém a ser mãe – o segundo ganha.

    Simples assim.

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  2. Anna
    25 de setembro de 2014

    Parabéns pelo texto Le!
    Já ouvi até falar de meninas que vão para os Estados Unidos, já que lá é legalizado.

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  3. Letícia
    26 de setembro de 2014

    Concordo com tudo o que você falou, Fernanda Cecília!

    Anna, só em alguns estados norteamericanos o aborto é legalizado, né?

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  4. Fernanda Cecília
    26 de setembro de 2014

    Não, Lê. Aborto é legalizado por decisão federal (Roe v. Wade, da Suprema Corte) em todo EUA. Eu não me lembro o ano exato, mas foi no começo da década de 70. Quer dizer, estamos atrasados, para variar…

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  5. Letícia
    27 de setembro de 2014

    Não sabia, Fernanda Cecília! Vou pesquisar sobre essa decisão!

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Informação

Publicado em 25 de setembro de 2014 por em Desabafo.
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