Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

O Dilema (uma obra de ficção) – Parte III (Final)

dilemma

(continuação)

 

Minha vida mudou depois daquele jantar. O Christian se despediu de mim com um beijo na minha mão, um gesto que eu achava que só existia nos filmes em preto e branco. Eu voltei para o Rio de Janeiro e, naquela noite mesmo, peguei todas os mementos que eu tinha do Felipe – fotos, entradas de festas que nós havíamos ido juntos, guardanapos de restaurante onde almoçamos com a família dele etc. – e os coloquei dentro de uma enorme caixa cor-de-rosa. Prometi a mim mesma que eu iria me esforçar para fazer o mesmo com as memórias dentro do meu coração.

 

Não demorou muito para as pessoas perceberem a mudança no meu comportamento. Era como se eu tivesse sido libertada de grilhões emocionais que me mantinham presa a ele. É claro que eu não tinha esquecido o Felipe. Mas toda vez que eu percebia que estava pensando nele, eu direcionava meus pensamentos a qualquer outra coisa. Minha principal “distração”, se é que posso chamar meu ofício disso, era, justamente, meu trabalho. Todos perceberam a mudança na minha dedicação ao escritório e fui elogiada pelos sócios da área que disseram que estavam positivamente surpresos com meu novo comprometimento.

 

Surpresos mesmo eles ficaram quando o Christian – que para eles era apenas o Diretor Comercial de uma das empresas do projeto – pediu que eu participasse do closing da operação que seria em São Paulo. E dessa vez ele me ligou antes da minha viagem, perguntando se eu não gostaria de passar o final de semana em São Paulo, já que a reunião estava marcada, convenientemente, para sexta-feira no final da tarde.

 

Até hoje eu não sei o motivo, mas eu disse sim.

 

Nós começamos a namorar naquela semana mesmo. Eu nunca tinha recebido um pedido de namoro na minha vida e confesso que achei aquela formalidade toda do “quer namorar comigo?” tão romântica. Eu sabia que eu não estava apaixonada pelo Christian, mas também reconheci que, de certa forma, isso era bom. O que a paixão tinha trazido de bom na minha vida? Por causa desse sentimento, eu me envolvi com um homem que claramente nunca me respeitou e passei anos sem dar uma chance para nenhum outro porque parte de mim ainda acreditava que ele iria aparecer num cavalo branco e declarar seu amor por mim.

 

Quando eu escolhi o Christian, eu escolhi um amor possível. Escolhi acreditar que poderia existir magia nas coisas do cotidiano e que saber que ele, sim, era apaixonado por mim, isso seria o suficiente.

 

O Christian queria que eu me mudasse para São Paulo imediatamente, mas eu disse a ele que queria esperar um pouco. Ele começou a viajar para o Rio nos finais de semana e, obviamente, fez questão de contar para os pais dele que estava namorando comigo. Eu nunca soube como a Larissa reagiu à notícia. O Christian se limitou a dizer que ela ficou surpresa, porém feliz e que não comentou muito. Eu, que conhecia o jeito tagarela e opinativo da Larissa, achava isso improvável, mas não insisti. Já a reação do Albert eu não só soube, como pude testemunhar em parte quando eu fui almoçar na casa deles.

 

Foi a primeira vez que eu entrei lá sem qualquer ligação com o Felipe. Levei flores e um cartão para a Larissa e uma garrafa de vinho para o Albert. Eu nunca tinha feito isso antes, mas era como se eu quisesse me reapresentar como uma mulher madura e não a menina que se apaixonou pelo filho mais novo deles. A Larissa me recebeu com muito carinho, mas ficou claro que agora havia uma distancia entre nós. O Albert me deu um abraço tão carinhoso quando eu cheguei que eu lembro de pensar que eu não sabia que ele era capaz de uma atitude tão calorosa. Durante o almoço, ninguém tocou no nome do Felipe. O Albert queria saber como estava meu trabalho, mas dessa vez não se limitou a fazer perguntas mundanas. Ele discutiu diversos tópicos do Direito comigo, queria saber minha opinião sobre as notícias de jornal e sobre as eleições que estavam por vir. De certa forma, eu me senti parte da família deles pela primeira vez naquele dia.

 

Eu nunca mais recebi um convite para almoçar ou tomar um chá com a Larissa. Entendi que eu não fazia mais parte da divisão de bens da qual ela e o Albert haviam acordado há tantos anos atrás, quando os filhos ainda eram meninos.

 

Eu me mudei para São Paulo seis meses depois que começamos a namorar e o Christian me pediu em casamento na nossa primeira semana morando debaixo do mesmo teto. O anel de noivado – um solitário no estilo princess cut, clássico e de muito bom gosto – estava na sobremesa que eu havia pedido em um dos restaurantes nós sempre frequentávamos.

 

Meu casamento foi um dia feliz, mas eu tenho a certeza de que eu fui a noiva mais calma da história. Não senti as borboletas voando pelo meu estômago que toda mulher descreve. Não me preocupei em estar tudo perfeito porque eu sabia que tudo correria muito bem. O Felipe estava na Indonésia e nos enviou um presente de lá, uma estátua exótica, junto com um cartão explicando que ele não poderia comparecer à cerimônia. Eu nunca perguntei ao Christian se ele tinha contado para o irmão que estava me namorando, então quando eu vi meu nome escrito de forma tão indiferente naquele cartão, senti um aperto no coração. Mas eu fiz como de costume. Direcionei meus pensamentos para focarem em outra coisa e segui com minha vida.

 

Nós tivemos quatro anos muito felizes, o Christian e eu. Ele é um marido atencioso, dedicado. As características que ele divide com o pai e que tanto incomodavam a Larissa, nunca me incomodaram. Sim, ele é caseiro. Não, ele não gosta de sair para dançar ou de festas com música alta. Não, espontaneidade não é algo que exista nas nossas vidas. Tudo é planejado. As viagens, as trocas de carro, os jantares. Aliás, sempre jantamos nos mesmos restaurantes e sempre com reserva para o mesmo horário. Mas durante anos essa rotina me trouxe estrutura, serenidade e uma previsibilidade apaziguadora. Eu me sentia segura.

 

Até o dia em que eu entrei no apartamento do Albert e da Larissa – nós decidimos passar o final de semana no Rio porque era aniversário de 88 anos da minha avó – e encontrei o Felipe.

 

Eu estava sozinha porque o Chris estava estacionando o carro. Como todo gentleman, ele não queria que eu andasse muito e me deixou na porta do prédio e foi achar uma vaga dentro do condomínio. Quando eu me deparei com o Felipe, minhas pernas começaram a tremer, minha boca ficou seca e eu ouvi um zumbido no meu ouvido que me deixou desequilibrada. Eu tentei ignorar meu mal estar, cumprimentando o Felipe com naturalidade, mas o som agudo que vinha do meu ouvido só piorava e eu finalmente tive que admitir que não estava passando bem.

 

Quando o Christian chegou, ele insistiu em me levar a um hospital. Ele também não sabia que o irmão tinha voltado de viagem e o cumprimentou de forma seca. É claro que ele sabia que eu estava assim por ter visto o Felipe e isso deve ter machucado ele, mas ele não demonstrou qualquer sentimento de raiva. Ele agiu como o homem educado e controlado com quem eu decidi me casar.

 

Quando eu fui atendida, o médico me disse que eu estava tendo uma crise de labirintite. Ao me examinar, ele me pediu para fechar os olhos e, segurando minha mão, me disse para andar em uma linha reta. Quando eu abri os outros eu tinha andando de forma dispersa pela sala. Ele me receitou alguns remédios e me pediu para evitar chocolate, refrigerante, café e qualquer viagem de avião.

 

Apesar do Christian ter protestado e insistido em contratar um motorista para nós voltarmos de carro para São Paulo, eu o convenci de que seria melhor se eu ficasse hospedada na casa dos meus pais até o próximo final de semana, quando ele poderia vir de carro para o Rio e nós voltaríamos juntos. Ele voltou no domingo pela ponte aérea e eu fiquei no Rio, na casa dos meus pais.

 

Isso foi precisamente há três semanas atrás.

 

Até hoje eu me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse voltado para São Paulo com o Christian, mas eu sei que não adianta pensar nesses cenários alternativos quando a minha realidade é tão urgente e ineludível. Até porque ter ficado no Rio não foi a única causa para o meu dilema.

 

A primeira coisa que aconteceu foi que o Felipe apareceu na porta da casa dos meus pais na terça-feira da primeira semana da minha estadia no Rio. Quantas vezes eu havia ensaiado mentalmente o que eu diria para ele se algum dia ele fosse me procurar? Dezenas? Centenas? É difícil dizer ao certo. Mas naquele dia eu não disse nada do que eu tinha imaginado. Falei com ele como se ele fosse um amigo de longa data:

 

– Como foi ficar fora por tanto tempo?

– Foi bom. Conheci tantos lugares novos. Bali é linda. Você precisa conhecer um dia.

– É, quem sabe?

– É sério, você iria amar. É a sua cara.

– Minha cara?

– É.

 

Eu quis que ele explicasse melhor, que ele dissesse o que exatamente sobre Bali que combinava tanto comigo. Não é que eu queria saber mais sobre Bali. Eu queria era saber o que ele tanto sabia sobre mim. Passamos anos “juntos”, mas eu não me recordava de uma só conversa onde ele demonstrou um interesse genuíno na minha personalidade ou nos meus gostos. Eu, sim, sabia dizer o que ele achava sobre as coisas, as músicas favoritas dele, as comidas que ele mais gostava. Sabia do mau humor que ele sentia quando ficava com fome e que ele já acordava sorrindo porque cada dia para ele era o começo de uma nova aventura. Eu desconfiava que ele tinha dislexia, tinha certeza que ele tinha DDA, sabia que ele adorava Casseta & Planeta e que o filme favorito dele era Um Peixe Chamado Wanda. Eu sabia que ele só gostava de comprar roupas na Osklen e na Abercrombie & Fitch e que ele amava montanhas russas, mas odiava zoológicos porque não suportava ver qualquer animal engaiolado. Ele adorava tecnologia, mas não gostava de poder ser encontrado a qualquer momento, ele adorava teatro e sabia dançar como poucos homens. Ele não entendia nada de política, ou de filosofia, ou de poesia, mas ele poderia conversar com um político, um filósofo e um poeta e todos provavelmente pensariam que ele tinha aquele charme inebriante da juventude, curioso e ansioso, tudo ao mesmo tempo. Eu sabia quem ele era. Eu sempre soube. Eu sempre iria saber. Mas ele? Ele mal me conhecia. Nós havíamos passado todo o nosso tempo juntos focando no assunto em comum que nós dois mais amávamos: ele.

 

– Eu não acredito que você casou com meu irmão. Até agora eu não acredito.

– Você foi convidado para o casamento.

– E você achou que eu iria?

– E por que não? O que você tinha a ver com isso, Felipe?

 

Essa foi a segunda coisa que aconteceu. Ao invés de agir como uma cunhada e lembrar do meu dever como mulher do Chris, eu desafiei o Felipe a falar do nosso passado. Eu queria ouvir ele dizer que nós havíamos tido um relacionamento. Queria que ele admitisse que, naquele dia que ele me fez fingir ser a prima dele, o dia em que ele me fez sentir suja e usada e descartável, que aquilo tudo tinha sido um mecanismo de defesa, uma armadura que ele colocou porque ele tinha medo de admitir que ele era apaixonado por mim.

 

– Eu voltei porque minha mãe comentou que você estava pensando em engravidar.

– E isso é da sua conta?

– Eu não posso deixar você fazer isso.

– E por que não?

– Porque eu gosto de você.

– Gosta?

– Amo.

– E por acaso você sabe o que é amar, Felipe?

– Aprendi com você.

 

A terceira coisa que aconteceu foi bem naquele momento. Eu não sei o que eu teria respondido, mas eu não tive a chance de descobrir porque ele imediatamente me beijou e eu o beijei de volta. Era como se toda a paixão que eu havia colocado dentro daquela caixa cor-de-rosa tivesse explodido como um vulcão em erupção. Meu coração voltou a pulsar naquele ritmo acelerado e meu sangue voltou a correr pelas minhas veias com calor. Eu sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono profundo.

 

Eu voltei a me sentir como eu mesma.

 

É esse o meu dilema. Há três semanas recebo visitas do Felipe diariamente, exceto nos finais de semana. Nós saímos, vamos à praia, a restaurantes diferentes. Fomos à Lapa, dançamos até o amanhecer e teve uma vez que ele me levou para jantar num restaurante todo escuro, sem qualquer tipo de iluminação, onde até mesmo os garçons eram cegos e nós não podíamos ver nossa comida, apenas prova-la. Ele começou a me ensinar a surfar e me levou para pular de asa delta, mesmo isso sendo, muito provavelmente, a última coisa que seria recomendada a alguém que teve uma crise de labirintite.

 

O Christian vem todo final de semana. Ele chega no sábado de manhã e eu explico que ainda não estou me sentindo bem para voltar à São Paulo. Me dói ver as saudades que ele sente de mim. Quando estamos juntos, assistindo a filmes, comendo pipoca e tomando vinho eu chego a sentir falta da minha rotina, da vida ao lado dele, do conforto que é estar com alguém que é tão estável e dedicado.

 

Mas aí ele volta para São Paulo e eu me sinto sugada pelo tornado que é o Felipe. Ao lado dele, cada dia é uma novidade. Eu também não posso negar que a química que eu sinto por ele é diferente de qualquer coisa que eu já senti com o Christian. O Chris me ama de maneira generosa, detalhista. Quando eu estou com ele eu sei que eu sou a prioridade dele e que o que ele quer é me dá prazer. Com o Felipe a graça toda é, de certa forma, o egoísmo dele, o fato que ele não me espera se eu for demorar, o jeito que nossos corpos agem como um só quando estamos juntos.

 

Eu sei que se eu escolher ficar o Felipe, eu nunca terei estabilidade. Do jeito que ele é quixotesco é inteiramente possível que ele decida voltar a viajar o mundo em busca de algo abstrato, ou que ele se apaixone por outra pessoa e me deixe a ver navios. Pode ser que ele enjoe de mim, me traia constantemente e, ainda que ele continue envolvido comigo, eu duvido que ele irá ser tão apaixonado por mim como eu sou por ele. Mas também sei que a vida ao lado dele nunca será entediante e que eu sentirei um leque de emoções novas, coloridas e excitantes.

 

Eu também sei que o Chris não merece o que eu estou fazendo com ele. Trair meu marido é algo que eu nunca imaginei que fosse fazer e algo que eu sei que ele nunca faria comigo. Não acho que ele morreria se eu escolhesse me divorciar. Do jeito que ele é cavalheiro e civilizado, ele provavelmente concordaria em se separar amigavelmente. Mas sei que eu partiria o coração dele. O Chris vai ser um pai incrível, dedicado e provedor e eu sempre sonhei em ter a minha família. E sei que eu estaria abrindo mão de uma sensação de tranquilidade e segurança sonhada por muitas mulheres.

 

Eu sei de tudo isso, mas eu continuo sem saber o que fazer.

 

Eu amo dois homens. Ou melhor, amo um e sou apaixonada pelo outro. Me diz, o que você faria se você estivesse vivendo o meu dilema?

 

FIM

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

***Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.*** 

 

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Um comentário em “O Dilema (uma obra de ficção) – Parte III (Final)

  1. Fabiana
    12 de setembro de 2014

    Fê, simplesmente amei o conto!!! Tava ansiosa pelo final!! Parabéns!!! Bjos!

    Curtir

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Publicado em 11 de setembro de 2014 por em Ficção Afiada.
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