Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

O Dilema (uma obra de ficção) – Parte II

dilemma

(continuação)

 

Eu conheci o Felipe na faculdade. Eu estudava Direito e ele cursava Pilotis I, Chopada Avançada e treinava para “baratonas”. Minhas amigas diziam que ele não tinha nada a ver comigo. Eu achava que era inveja delas. Afinal, aquele homem alto, bonito, musculoso e extremamente popular queria sair comigo. Elas me alertaram para o fato de que ele não levava mulher alguma a sério, mas eu, na minha ingenuidade incansável própria de moças jovens e tolas, achava que comigo seria diferente.

 

 

E, de certa forma, até foi, mas não porque o Felipe me levou a sério, mas sim porque eu me apaixonei e acho que não dei outra escolha para ele além de me deixar participar da vida dele, ainda que nos seus termos.

 

 

Logo no primeiro período, começamos a sair com frequência. Eu costumava a sugerir encontros que envolviam jantar fora e ir ao cinema e, de vez em quando, ele concordava. Mas na grande maioria das vezes nossos programas eram ir às chopadas, onde eu invariavelmente o perdia de vista em algum momento. Na faculdade, tinha dias que ele andava em minha direção, pegava na minha mão e me levava até o bosque, onde conversávamos e trocávamos beijos apaixonados. E também havia dias nos quais ele simplesmente me ignorava ou me tratava como uma amiga. Depois de quatro nos, ele nunca me pediu em namoro, mesmo depois de várias indiretas minhas. Mas eu consegui convencê-lo a me apresentar aos pais dele. Bom, talvez convencer seja uma palavra forte demais para como isso aconteceu.

 

 

Quando estávamos no 7o período da faculdade – bom, eu estava no 7o período, mas o Felipe tinha repetido tantas matérias que eu sequer sabia se ele iria se formar -, o Felipe pegou uma virose forte, daquelas que deixa a pessoa de cama por uma semana. Eu fiquei com vontade de vê-lo durante a semana inteira, mas entre a faculdade e o estágio eu não tinha tempo de fazer uma visita à casa dele em algum horário decente. Então, esperei o sábado, tomei coragem e preparei uma cesta com bolinhos e a receita de canja da minha avó e fui até a casa dele sem avisar antes.

 

 

Aqui eu quero fazer uma pausa. Acreditem: eu não sou o tipo de mulher que vai até a casa de alguém sem ser convidada, muito menos de um quase namorado que nunca se deu o trabalho de me apresentar aos pais dele. Mas eu era apaixonada, jovem, e parte de mim acreditava que se os pais dele me conhecessem, eles iriam fazer o Felipe perceber que eu era a mulher certa para ele.

 

 

Eu me lembro com riqueza de detalhes do dia em que eu conheci a Larissa. A Jô, secretaria do lar que trabalha lá há décadas, atendeu a porta e quando eu expliquei que era uma amiga do Felipe da faculdade, eu ouvi a voz da Larissa, cheia de alegria retumbante:

 

 

– Amiga do Felipe? Entre, querida! Seja bem vinda, eu sou a mãe dele, a Larissa.

 

 

A Larissa fala que é mãe do Felipe com o mesmo tom de orgulho que alguém conta que ganhou um prêmio Nobel. Ela logo me convidou para tomar um café, disse que o Felipe estava cochilando, mas insistiu que eu o esperasse acordar. Nada do que ela falou me deu qualquer indício de que o Felipe havia contado uma palavra sequer sobre a minha pessoa para a mãe dele, o que me faz pensar que se não fosse pela recepção calorosa que a Larissa me deu, talvez eu tivesse voltado para casa e esquecido o Felipe de vez. Talvez…

 

 

Quando a Larissa me pediu licença para ir ver se o Felipe já tinha acordado, eu me dirigi à mesa de apoio na sala onde haviam vários porta retratos. Olha, Freud teria um prato cheio com aquela mesa. Metade dos porta-retratos eram de fotos do Christian, sério, com sorriso amigável, porém contido, e geralmente com o pai do lado. Fotos dele recebendo prêmios na escola, dele esquiando, das formaturas dele. A outra metade eram de fotos do Felipe. Sorriso alegre, caretas, poses brincalhonas. Fotos dele na praia, surfando, bebendo água de coco e em festas, sempre com um copo na mão. E, é claro, muitas fotos com a Larissa ao lado dele. Havia, também, fotos dos quatro em família, mas eram poucas. A mesa ilustrava bem a dinâmica familiar que eu ainda desconhecia.

 

 

Quando a Larissa voltou e me viu olhando as fotos, ela começou a me contar a história por trás de cada foto do Felipe. Quando ela chegou nas fotos do Christian, ela ainda falava com muito carinho do filho, mas também com um ar de tristeza.

 

 

– O Christian é mais parecido com o Albert, sabe? Ele é sério e tímido. Ele sempre foi ótimo aluno e muito responsável. Ele mora em São Paulo agora, está super bem por lá, mas ele ainda não aprendeu a viver, entende? Acho que ele puxou isso do pai. Meu marido não vive a vida como eu, ele prefere coisas mais calmas, ele é caseiro.

 

 

– Você é mais parecida com o Felipe, então?

 

– Isso! Viemos da mesma fôrma!

 

 

Acho que foi esse comentário meu – que estava mais para um truísmo – que fez a Larissa gostar tanto de mim. Isso e o fato de ela ter percebido que nós tínhamos uma coisa em comum: éramos muito apaixonadas pelo filho caçula dela.

 

 

Depois daquele dia, eu passei a frequentar a casa do Felipe. Eu fazia questão de contar para as minhas amigas do meu convívio com os pais do Felipe, como se aquilo validasse nosso relacionamento e me tornasse diferente das outras meninas. Eu era tão apaixonada que eu não via, ou melhor, preferia não ver, o ar de pena nos rostos delas. Afinal, aquilo não era namoro. Ele não me tratava da forma que eu merecia. E conhecer os pais dele e almoçar com eles no final de semana não mudava isso.

 

 

Mas me mostre uma mulher que nunca fez besteira por estar apaixonada e eu lhe mostrarei uma mulher que nunca viveu. Faz parte.

 

 

Até o dia que não fez mais. Teve uma noite que eu apareci de surpresa numa festa que o Felipe já tinha dito que queria ir, mas apenas com os amigos. Até então, eu respeitava essas vontades dele sem questionar. Perdi a conta de quantas noites eu fiquei em casa chorando, me perguntando o que ele estava fazendo nas festas que ele tinha escolhido ir sozinho. Mas naquela noite eu decidi me rebelar, imaginando que eu faria uma surpresa como no dia em que ele estava doente e, com isso, iria estabelecer uma nova dinâmica entre nós dois.

 

 

Cheguei na festa e já fui logo dando um beijo nele, o que ia contra meu costume de esperar para ver se ele iria querer ficar comigo. Ele ficou irritado com minha intromissão, mas não falou nada. Naquela noite, eu dormi na casa dele, como já havia feito diversas vezes. Percebi o comportamento hostil dele para comigo, mas me convenci de que seria apenas um período de adaptação.

 

 

Só que, de manhã, ao invés de tomarmos café da manhã com a Larissa e Albert, o que já era um costume, o Felipe me acordou bem cedo dizendo que eu precisava ir para casa porque ele tinha um compromisso. Eu fiquei confusa e perguntei:

 

– Que compromisso?

– Eu vou sair com alguém.

– Como assim? Com uma garota?

 

 

Ele me disse que tinha marcado de surfar com uma menina que ele tinha acabado de conhecer. Ele falou aquilo com tanta naturalidade que eu não pude acreditar no que estava ouvindo. É claro que eu sabia que ele ficava com outras meninas, mas nunca imaginei que ele fosse falar isso para mim assim, sem qualquer tipo de preocupação com meus sentimentos.

 

 

E, com o Felipe, tudo que estava ruim ainda poderia piorar.

 

 

Quando eu pedi para ele me levar para casa, em tom magoado, certa de que ele perceberia que estava sendo insensível com alguém que gostava tanto dele, ele respondeu:

 

– Tudo bem, mas vou passar para pegá-la porque a casa dela é no caminho da sua.

 

 

Eu gostaria de contar que eu exigi que ele me levasse para casa sem passar para pegar a tal menina. Aliás, eu gostaria de contar que eu dei um tapa na cara dele, sai do apartamento e nunca mais voltei. Mas nada disso seria verdade.

 

 

A verdade – humilhante, dolorida e que me dá nojo até hoje só de pensar – é que ele buscou a tal menina mesmo, e ainda me pediu para ir para o banco de trás. Eu não concedi, como se esse pequeno ato de rebelião fosse salvar um último pingo de dignidade própria. Talvez por retaliação, ele me apresentou como prima dele. Fiquei muda durante todo o trajeto de carro. Me senti suja, usada, patética e tola.

 

 

Jurei para mim mesma que eu nunca mais iria permitir que o Felipe me beijasse. E durante oito anos eu mantive essa promessa.

 

 

Depois daquele dia eu parei de procurar o Felipe. Eu acho que ele entendeu o recado, porque ele também nunca mais pegou na minha mão no Pilotis e me levou para me dar beijos no bosque. Nossa formatura se aproximava, eu estava focada na prova da OAB e em ser efetivada no escritório, enfim, minha vida estava tão corrida que foi relativamente fácil ficar longe do Felipe. É claro que eu pensava nele durante todo minuto livre que eu tinha, mas consegui resistir à tentação de procurá-lo. De vez em quando alguma amiga me perguntava sobre ele ou me contava alguma notícia dele, mas eu preferia nem tocar no assunto e, aos poucos, elas foram percebendo isso.

 

 

Até hoje, eu não sei se entrei em depressão. Parte de mim acha que não porque eu tinha uma vida muito ativa e pessoas deprimidas sequer conseguem sair da cama, não é mesmo? A outra parte acha é que é possível, sim. Eu não tinha apetite, comia apenas para não desmaiar, mas sem sentir o gosto de nada. Eu não tinha vontade de sair, de ver filmes, de ler livros. Meus momentos livres eram ocupados revivendo a nossa história na minha mente. Eu repassava cada palavra, cada atitude, cada beijo na minha cabeça, procurando o que eu poderia ter feito de diferente. Mas eu estava conformada. O Felipe não seria meu.

 

 

Eu me formei, fui efetivada no escritório e segui com a minha vida, mas eu sempre mantive contato com a Larissa. Toda vez que ela me convidava para almoçar ou para tomar um café, eu dizia para mim mesma que estava fazendo isso apenas porque eu gostava da companhia dela. Eu justificava esse contato contínuo me recordando de todas as vezes em que ela me viu triste por causa do Felipe e me confortou, das vezes nas quais ela falava sobre como ela gostaria que eu me casasse com o filho dela, comentando que eu seria uma nora perfeita e que amaria o Felipe acima de tudo. E durante esses encontros nós conversávamos sobre tantas coisas, mas, inevitavelmente, o assunto do Felipe surgia.

 

 

E eu ia acompanhando a vida dele de longe. Aprendi que ele demorou a se formar, afinal, ele não estudava e a faculdade era como uma fonte da juventude, permitindo que ele continuasse na Terra do Nunca. Soube que depois de formado ele conseguiu enrolar os pais por alguns meses dizendo que iria estudar para concurso público, o que obviamente era um eufemismo para não fazer nada o dia inteiro. A última notícia que eu tive dele antes de tudo mudar foi que ele tinha decidido viajar, a contragosto do Albert, mas totalmente apoiado pela Larissa, que acreditava que o Felipe precisava, nas palavras dela, “se encontrar”.

 

 

De certa forma, eu ainda era viciada no Felipe. E aqueles pedacinhos de informação alimentavam meu vício, mas também o matinha sob controle. Eu continuava conformada de que ele não seria meu, mas eu também sentia um prazer doentio em saber que ele não era de mais ninguém. E, não vou negar, eu adorava ver como a Larissa torcia para um dia nós ficarmos juntos novamente. Saber que ao menos a Larissa gostava de mim era uma espécie de prêmio de consolação.

 

 

Às vezes eu me pergunto: se ela soubesse do meu dilema, será que ela ainda iria gostar de mim?

 

 

Quis a vida que uma série de acontecimentos, aparentemente desconexos e mundanos, ocorressem para mudar a direção do meu destino. Eu já estava formada há três anos e tinha acabado de assumir um grande caso no escritório. O deal envolvia a fusão entre duas empresas alimentícias e nosso trabalho era analisar o trabalho do ponto de vista do direito da concorrência. Em meio a pesquisas envolvendo o Conselho Administrativo de Defesa Econômica e a Secretaria de Defesa Econômica, eu fui chamada para uma reunião em São Paulo com a diretoria das duas empresas. O sócio do escritório que ia participar da reunião comigo estava em Brasília para uma sustentação oral e ficou preso quando o aeroporto da capital foi fechado de última hora para pousos e decolagens por causa das chuvas. Eu tive que ir à reunião sozinha.

 

 

Chegando lá, para a minha imensa surpresa, descobri que o Diretor Comercial de uma das empresas era justamente o Christian.

 

 

Meu contato com o Christian até então tinha sido escasso. Apesar do meu relacionamento com o Felipe não ter passado de um namoro construído na minha mente, minha ligação com a família dele era inegável. Eu não conseguiria fazer as contas de quantos almoços de família eu já tinha participado, mas meu contato era basicamente com a Larissa. O Albert era educado e gentil comigo, fazendo perguntas sobre a faculdade e sobre o meu trabalho, mas não era uma relação próxima. E quando o Christian visitava o Rio ele era muito simpático, mas eu nunca havia me tornado próxima dele. Hoje em dia, eu vejo que, como o Albert e o Christian não idolatravam o Felipe como a Larissa, eu não prestava muita atenção neles.

 

 

E foi por isso que eu fiquei tão surpresa quando o Christian não só se lembrou de mim, como me chamou para jantar. Tudo tinha corrido bem na reunião e eu havia reparado como o Christian prestava atenção quando eu falava, com um olhar concentrado que me fazia sentir que tudo que eu falava era importante e de grande valor.

 

 

Eu aceitei jantar com o Christian. Afinal, meu voo de volta para o Rio só estava marcado para o final da noite e não faria sentido tentar antecipá-lo quando eu poderia ter uma noite agradável com alguém que foi uma espécie de cunhado para mim por um tempo. Além disso, fazia um tempo desde o meu último almoço com a Larissa e – eu deveria ter vergonha de admitir isso – também queria muito saber se o Christian tinha notícias do Felipe. Eu imaginei que seria um bate papo entre duas pessoas que se conheciam há anos, ainda que superficialmente.

 

 

Só que o jantar foi bem diferente de tudo que eu poderia ter esperado. O Christian escolheu um restaurante refinado, elogiou minha roupa (mesmo sendo a mesma que eu usei na reunião) e disse que eu estava linda. Ele puxou a cadeira para eu sentar e quis saber tudo sobre minha vida, meus gostos e meu trabalho.

 

 

Lá pela metade do jantar, eu percebi que alguma coisa estava diferente e foi então que eu me dei conta de que aquela era a primeira vez que um homem tinha feito tantas perguntas sobre mim, demonstrando tanto interesse no que eu tinha para falar. Até então, eu acho que eu não tinha me dado conta da magnitude da minha carência. Como eu queria ser ouvida! Como eu queria que minha voz tivesse valor! Contei do meu trabalho, das minhas amigas e até mesmo dos rapazes que eu já tinha saído, mas que nunca tinham me interessado a ponto de querer um relacionamento mais sério. Nesse momento, ele perguntou:

 

– Então o único rapaz que você namorou foi meu irmão?

 

 

Eu respondi que sim, felicíssima que alguém além da Larissa e da minha imaginação tinha se referido à minha história com o Felipe como namoro. Ele deve ter percebido algo no meu rosto porque ele disse:

 

– Meu irmão nunca mereceu você. Fico feliz que você tenha percebido isso. Eu vejo como você mudou, como você está mais madura e adulta. Uma mulher como você, linda, inteligente, aplicada… não faz sentido você ficar com alguém como meu irmão. Você o ter esquecido mostra que você tem bom senso.

 

 

Nada daquilo era verdade, é claro. Mas naquele momento eu decidi que seria.

 

(continua…) 

 

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

***Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.*** 

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Publicado em 7 de setembro de 2014 por em Ficção Afiada.
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