Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

O Dilema (uma obra de ficção) – Parte I

dilemma

Eu nunca imaginei que eu, Elizabeth de Andrade, viveria um dilema como esse. Heroínas de comédias românticas? Evidentemente. Personagens de Jane Austen? Naturalmente. Até mesmo minhas amigas de faculdade, muito mais bonitas e sedutoras do que eu? Possivelmente.

Mas eu? Não… não faz sentido.

Mas deixe-me explicar. Não é um dilema que eu possa simplesmente resumir, até porque não quero que as pessoas pensem que eu sou o tipo de mulher que… Bem, o tipo de mulher que normalmente se encontra em situações como essa.

Só que, para entender meu dilema, é preciso entender o Christian e o Felipe. E para conhecer mais sobre esses dois irmãos, é necessário saber a história do Albert e da Larissa.

O Albert pode ser resumido em duas palavras: lorde inglês. Não que ele tenha um título formal, pelo menos não que eu saiba. Mas ele é aristocracia pura, com seus bons modos, jeito circunspecto e voz grossa, porém suave e ponderada. Ele é o tipo de homem que, mesmo depois de trinta e dois anos de casado, levanta toda vez que a Larissa pede licença para ir ao toalete. Romântico, culto e sempre de barba feita, Albert usa a mesma água-de-colônia desde os seus 16 anos de idade.

O tipo físico dele combina bem com sua personalidade. Magro, mas não musculoso. Alto, mas não altíssimo. Pele claríssima, olhos azuis, mas não um azul turquesa ou algum outro tom exótico. É um azul parecido com gelo. Hoje em dia os cabelos loiros dele não são mais tão fartos, mas ele também não é careca. Seus gostos são tão aristocráticos quanto sua aparência. Albert gosta de ler, sobretudo as obras clássicas, aprecia um bom vinho, caminhadas no final da tarde e jantares em restaurantes tradicionais. A moda muda, mas a vestimenta de Albert continua clássica, sóbria e de bom gosto.

A Larissa é um tipo bem brasileiro. Baixinha, com apenas 1,55m de altura, ela tem pele bronzeada, cabelos cacheados indomáveis e olhos da cor da jabuticaba. Quando Larissa fala, todos ouvem. Primeiro, porque ela é divertidíssima, está sempre rindo, usando onomatopeias e gesticulando de forma enfática. Segundo, porque a Larissa falta alto mesmo. E ela não se preocupa com seu nível de decibel, simplesmente porque não passa pela cabeça dela que alguém não gostaria de ouvir o que ela tem a dizer. Larissa é a alma de qualquer festa. O carisma dela chega a ser tangível. A energia dela é contagiante! A Larissa conhece alguém e, em cinco minutos, já deu um apelido para essa pessoa e já fala com ela como se fosse sua melhor amiga de infância.

Sabe aquele ditado, “os opostos se atraem?”. Bem, Albert e Larissa são a prova de que isso é verdade. Eles também são a prova de que a atração nem sempre é suficiente para a felicidade, mas deixe-me primeiro contar a história de como eles se conheceram.

Há trinta e seis anos atrás, o Albert era casado com uma mulher canadense, séria, discreta e, muito provavelmente, bem sem graça. Eu sempre tento me lembrar o nome da primeira mulher do Albert, mas a verdade é que acho que ele nunca falou dela. O Albert se mudou do Canadá – onde ele morava com a mulher e os dois filhos – para São Paulo na mesma época em que a Larissa foi transferida do Rio de Janeiro para a capital paulistana.

Os dois trabalhavam na mesma multinacional canadense e participaram do seminário para funcionários recém chegados naquela filial da empresa. E foi aí que eles se apaixonaram. A Larissa viu o Albert, vice-presidente de marketing da empresa, com aquela fisionomia britânica e charme estrangeiro e logo se apaixonou. O Albert se encantou pelo entusiasmo que Larissa emanava a cada palavra que saia da boca dela, pelo jeito espevitado e exagerado dela. Um achava o outro exótico.

Pronto, foi amor a primeira vista.

Eles se casaram – sim, Albert fez a primeira e única “loucura” da vida dele e se separou da primeira mulher – e tiveram o primeiro filho logo no primeiro ano de casamento. Se eles não tivessem tido filhos tão rapidamente, talvez eles tivessem percebido que, embora a atração inicial um pelo outro fosse fortíssima, os jeitos polares dos dois não se misturavam, e é possível que, nesse caso, o casamento não tivesse durado tanto tempo. Mas os dois pombinhos quiseram logo ter uma família, o Albert jurando que desejava uma menina enérgica e cheia de vida como a Larissa e ela, por sua vez, anunciando que sonhava com um pequeno aristocrata como o marido.

            Minha avó sempre dizia, cuidado com seus desejos. Os anjos podem ouvir e dizer amém. Sábia vovó.

O Christian deve ter sido o único bebê que veio ao mundo chorando de forma parcimoniosa. Bom, o primeiro desde o Albert, é claro. Desde o começo, ficou claro que ele seria igual ao pai e não me refiro somente ao quesito físico. O Christian sempre foi cuidadoso, guardava seus brinquedos depois de usá-los, não fazia manha, tinha bons modos, enfim, era um pequeno lorde.

Evidentemente, eu não os conhecia na época, mas aposto que foi observando o comportamento de seu primogênito que a Larissa começou a se irritar com as semelhanças entre ele e o marido. Onde estava a espontaneidade dessa criança? E por que ele não corria mais? Não era normal que uma criança usasse roupa branca e voltasse da escola sem um mancha! Meninos deveriam ser levados!

Quando Christian tinha 5 anos de idade a Larissa engravidou novamente. Naquela época, o casamento dos dois já não era mais o mar de rosas que eles tinham imaginado que seria. A Larissa começou a se queixar de que o marido não gostava de dançar quando eles iam a festas de amigos, que ele nunca a surpreendia com algo novo e inesperado e que ela queria experimentar novos restaurantes. O Albert não reclamava da mulher, pelo o contrário, mas essa falta de paixão para brigar e revidar as reclamações da Larissa a tornavam ainda mais irritada com ele.

O Albert estava torcendo para que o novo bebê fosse uma menina; ele continuava dizendo que queria uma princesa como a Larissa para mimar e cuidar. Eu sempre achei que o Albert seria um excelente pai de menina. Mas o destino tinha outros planos.

Quando a Larissa tinha seis meses de gravidez, eles se mudaram para o Rio de Janeiro. A Larissa estava felicíssima de voltar à sua cidade natal, com praia, “s” chiado e trajes informais. A verdade é que o Albert combinava mais com São Paulo, mas ele estava feliz por ter a chance de conhecer melhor o lugar de origem de sua mulher. Eles brincavam que teriam um filho paulistano e outro carioca.

Eles não tinham como saber como essa afirmativa seria profética. 

O primeiro sinal de que o Felipe seria filho da Larissa (assim como o Christian era filho do Albert) veio na hora de escolher o nome dele. Os dois discutiram até o último minuto. O Albert queria Phillip e a Larissa queria Felipe. Ela disse que eles já tinham um filho que combinava com o sobrenome nórdico do pai e agora ela queria um que combinasse com o sobrenome de solteira dela. O fato dela ter parado de usar seu nome de solteira há muitos anos não parecia ser relevante para Larissa.

E o Felipe não poderia ter se chamado Phillip porque não iria combinar com ele. Espevitado, faceto, sapeca, cheio de energia e com um sorriso que desarmava qualquer um, Felipe era do tipo que arrumava confusões e depois conseguia escapar do castigo por causa do charme que ele esbanjava. Ele falava alto como a mãe, não tinha medo de rolar na areia, subir em árvore, andar de skate. Enfim, era o filho que Larissa tanto queria. Albert olhava Felipe com uma mistura de fascínio e receio. Era quase como se ele não pudesse acreditar que ele dividia um código genético com um menino tão diferente dele, com tanta alegria de viver. Fisicamente, o Felipe era a cara da Larissa, com exceção dos olhos claros, mas no caso dele o azul era igual a uma turmalina paraíba, lindíssimos e hipnotizantes.

As diferenças entre os dois irmãos eram evidentes desde o primeiro momento. Apesar da grande diferença de idade, eles eram comparados entre si o tempo todo. Aliás, foi a relação de irmãos do Felipe e do Christian que me fez reparar como os pais tendem a compartimentalizar seus filhos, como se o fato de um ter uma determinada característica significasse, necessariamente, que o outro teria a exata oposta. No caso deles, eu tenho a certeza de que muitas das diferenças eram natas, mas também tenho a convicção de que, em parte, foi a influência do Albert e da Larissa, que faziam questão de rotular os filhos.

Se o Christian era sério, introvertido, excelente aluno, responsável e pontual, o Felipe era alegre, extrovertido, péssimo aluno, irresponsável e espontâneo. E assim eles cresceram, cada um mais determinado a se encaixar na forma que tinha sido imposta a eles. Inevitavelmente, Albert e a Larissa discutiam sobre algum assunto relacionado ao filhos. O Felipe tinha que tomar jeito e estudar mais. O Christian tinha que tirar a cara dos livros e aprender a socializar.

E o casamento do Albert e da Larissa ficou ainda mais fragilizado com a mudança deles para o Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, Larissa queria passar mais tempo na praia, em casas de samba e outros lugares que não combinavam a mínima com o Albert. Se, em São Paulo, eles conseguiam manter a harmonia por causa do ar burguês da sociedade paulistana, no Rio isso não era possível. Os filhos ocupavam grande parte dos momentos dos dois e eles acabaram se tornando mais família do que casal.

Os meninos eram o mundo deles. E eles fizeram seu próprio Tratado de Tordesilhas, dividindo esse mundo entre os dois. O acordo tácito não poderia ser mais claro: o Felipe era da Larissa e o Christian, do Albert.

E qual dos dois seria meu? Bem, é esse o meu dilema.

(continua…)

Escrito e publicado por Fernanda Cecília 

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

***Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.*** 

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3 comentários em “O Dilema (uma obra de ficção) – Parte I

  1. Anna
    4 de setembro de 2014

    Quero logo ler o resto!

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  2. Isadora
    4 de setembro de 2014

    Adorei o Blog meninas! Muito legal, me diverti com esse texto!

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  3. Letícia
    4 de setembro de 2014

    Adoro as ficções da Fernanda Cecília!

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Publicado em 3 de setembro de 2014 por em Ficção Afiada.
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