Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

A Angústia de Assistir Mad Men

mad women

Com atraso de alguns (muitos) anos, comecei a assistir Mad Men semana passada. Uma virose me derrubou feio e fiquei de cama por quatro dias, o que significou tédio de horas. Resolvi, então, buscar opções para me distrair e descobri que meu pacote de TV a cabo tem quase todas as temporadas da famosa série. Me acomodei da melhor forma possível e dei o play…

Nossa… Que angústia! Eu me colocava no lugar daquelas mulheres (todas) do seriado. A sensação é de que não havia como uma mulher ser feliz na década de 60: ou você casa e tem filhos, ou você trabalha, ou você tem vida sexual, sendo que uma opção exclui a outra. Ah, e as mulheres casam para ter filhos.

Para piorar, eu estava de molho em casa, sem trabalhar, estudar ou fazer qualquer coisa produtiva. Isso só contribuía para aumentar minha angústia, como se o cobertor fosse um casulo que, ao invés de me transformar em uma borboleta, iria me transformar em uma dona de casa da década de 60! Em outras palavras, virou filme de terror!

Mas sou brasileira e não desisto nunca! (Na verdade, sou curiosa e queria entender a graça que todo mundo vê na série.) Continuei até a metade da primeira temporada, com uma angústia crescente e uma vontade louca de sair para trabalhar, apesar da aparência de zumbi e da tosse de alien. Até aqui, nada de melhora, pelo contrário, dá vontade de sair e mobilizar o maior número possível de mulheres e queimar sutiã. Confesso: eu nunca tinha entendido o porquê de se queimar lingerie até ver essa série.

Aí, me dei conta: todas as mulheres deveriam ver essa série, por mais angustiante que seja! Já ouvi muita história de como as mulheres viviam na década de 60, já li livros, contos e até crônicas sobre o assunto, mas ver mulheres interpretando o cotidiano daquela época me tocou de uma forma diferente. Como acabei de dizer, queimar sutiã passou a ter sentido para mim.

Hoje, vejo que o movimento feminista, muitas vezes, é deturpado ou desacreditado, parece que muitas de nós não entendem a sua relevância histórica e social. Talvez, ninguém tenha “desenhado” para elas o que era ser mulher há poucas décadas. E esse é o grande mérito da série até aqui: mostrar como as mulheres eram aprisionadas das mais diferentes formas.

A impossibilidade das mulheres buscarem sua completude, conciliando, ainda que com dificuldade, diferentes aspectos de suas vidas é algo que sufoca mesmo hoje. Na época, isso significava que tudo se transformava em uma prisão: a esposa tinha que desempenhar seu papel com graça e presteza, mas não podia buscar qualquer outro tipo de realização que não fosse a satisfação do marido e dos filhos; a empresária não conseguia ter uma vida amorosa que a preenchesse, pois um namoro poderia culminar num casamento confinante; aquelas que usufruíam sua liberdade sexual estavam fadadas a serem párias.

Em suma: o casamento, o trabalho e o sexo aprisionavam as mulheres.

Por isso, todas nós, mulheres que hoje trabalham, estudam, escolhem casar ou não, ter filhos ou não, devemos agradecer todas essas oportunidades às mulheres que, antes de nós, queimaram sutiã. E, como é relevante nunca esquecermos disso, vou assistir Mad Men por mais algum tempo.

Escrito e publicado por Letícia

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3 comentários em “A Angústia de Assistir Mad Men

  1. Fernanda
    28 de agosto de 2014

    Eu sou fã da série e a impressão que eu tinha ao acompanhar a vida da Peggy, Don, Betty e cia era que as mulheres estavam muito mais para filhas dos seus maridos do que para companheiras. É claro que havia as exceções – a Joan, que era amante e trabalhava, mas que no fundo queria mesmo era ter casado ou a Peggy que por não ser uma grande beleza não tinha uma fila de maridos e, com isso, descobriu a ambição de ter uma carreira (e não somente um emprego) – mas na grande maioria das vezes as mulheres eram sustentadas e não digo somente num sentido financeiro. Elas tinham as mesmas visões políticas dos maridos, os mesmos interesses, formas de pensar, formas de administrar a casa… tudo era ditado pelo jeito deles de “criar” as mulheres. Assim como os pais fazem com os filhos. As mulheres não eram iguais, não eram companheiras. Eram filhas dos próprios maridos. Muita coisa já mudou – thank God! – mas ainda existem mulheres que vivem assim, muito mais para filhas do que para companheiras. Cada um sabe da própria felicidade, mas assistir Mad Men ajuda a ver as armadilhas desse tipo de dinâmica doméstica. Parabéns pela crônica, Lê!

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  2. asafiadas
    29 de agosto de 2014

    Acho que ainda não percebi essa dinâmica que você menciona, Fê, porque ainda estou muito no início. Mas vou continuar a assistir e quem sabe escrevo mais depois? Acho importante continuarmos a pensar no papel da mulher na sociedade, pois ainda há o que evoluir. Essa dependência de ideia e ideologias é mais comum do que imaginamos. Fico feliz que você tenha gostado!
    Letícia

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  3. Christina
    7 de fevereiro de 2015

    Essa conversa me interessa, apesar de não ter visto a série. Melhor, ainda não vi. Bem, queria dizer que ainda é muito difícil conciliar todas as demandas de uma mulher. E há mulheres que ainda caem neste padrão e houve mulheres desta época que foram capazes de sair destes papéis. Eu mesma convivi e convivo com mulheres contemporâneas destas personagens e que são um referencial para mim.

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Publicado em 28 de agosto de 2014 por em Desabafo.
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