Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

As Fofocas (uma obra de ficção)

fofocas 2

Ana Júlia: Eu não vi o incidente, mas eu tenho certeza que quem começou foram as mães de salto. Elas adoram aparecer nesses eventos da escola, todas maquiadas e perfumadas, de salto alto, esfregando na nossa cara que elas tem uma carreira e são mães. Até parece que são elas que criam os próprios filhos, sabe? Algumas delas sequer sabem que os filhos têm dificuldades na escola. Essas mulheres acham que dá para fazer tudo, mas a realidade é que não dá, não. Não sem prejudicar as crianças. Aquela Renata, por exemplo, ela tem três filhos. Três! E mesmo assim continua trabalhando com finanças ou sei lá o que. Quem você acha que está criando os filhos dela? Mas, como eu disse, eu não vi nada. Porque na hora que tudo aconteceu eu estava prestando atenção nos meus filhos. De repente se todas estivessem fazendo isso nada disso teria acontecido.

Cláudia: Eu vi tudo. A mãe do Paulo – não me lembro o nome dela, mas sempre a achei esquisita – empurrou a Catarina. E aí a Catarina caiu na fogueira! Ela poderia ter se queimado, meu Deus! Foi sério, ela chegou a ir para o hospital. Ficou com o braço enfaixado e tudo.

Carmen: Mães de salto? Olha, até que eu gostei do nome. A gente anda de salto alto mesmo. E mesmo sem ter tempo livre como as donas de casa, costumamos estar mais bem vestidas e mais bonitas. Mas essa rixa só existe na cabeça delas. É inveja, porque nós conseguimos manter nossas carreiras mesmo depois da maternidade. Mas não houve um incidente. Foi só uma discussão entre duas mães. Que exagero dessas desocupadas. Eu fiquei sabendo que a Catarina machucou o braço depois, jogando tênis, eu acho.

Luiza: A Catarina nunca sequer segurou uma raquete de tênis na vida. Quem joga tênis é o Carlos, marido dela. Ela foi empurrada sim, mas diz a Maria Inês que foi sem querer.

Penélope: Eu ouvi dizer que a briga foi por causa dos filhos. A Catarina pegou o Paulinho dando um beijo na Amanda e perdeu a cabeça, deu um escândalo e a Maria Inês a empurrou para ela ficar quieta. Mas e daí se o Paulo deu um beijo na Amanda, gente? São crianças, não têm maldade.

Laura: Se fosse com minha filha, eu teria dado um tapa no Paulo. Pronto, falei!

Renata: Sim, eu trabalho em tempo integral, mas eu estava presente no dia do acidente porque, sempre que possível, eu gosto de participar dos eventos da escola. E eu quero ser categórica: foi um acidente. A Maria Inês é educada demais para machucar alguém de propósito. Mesmo sendo provocada.

Luciana: Eu conheço a Catarina há anos e posso garantir que ela não provocou ninguém, só falou a verdade. Se a carapuça serviu…

Beatriz: O problema começou com a história dos convites. Você deve saber… para a festa da Amanda? A Catarina deixou a filha entregar os convites para todo mundo da turma, menos para o Paulo. E na frente de todo mundo! É claro que a Maria Inês ficou com raiva! Elas sempre foram tão amigas, o que eu sempre achei meio esquisito.

Joana: Amigas? Sei não… eu nunca acreditei naquele papo de amizade. Se alguém roubasse o meu marido eu não seria amiga dela. O problema é que hoje em dia as pessoas agem de forma civilizada demais, beirando à falsidade. Na época da minha avó, se uma mulher fizesse o que a Catarina fez as outras mulheres iriam parar de falar com ela na hora. Gelo total, sabe? Pode parecer cruel, mas pelo o menos era verdadeiro. Eu posso te oferecer um café ou uma água? Você está conversando com todas as mães da escola?

Rita: Pois é, menina, a história das duas já virou lenda na escola. É sério, eles deveriam incluir um resumo daquela novela nos papéis de admissão do colégio. Tem até alguns detalhes que variam dependendo da versão, mas a história é basicamente a mesma. Você já deve ter ouvido de todo mundo, não é mesmo? Por isso que eu não entendi o que aconteceu na festa junina. O que pode ter havido de tão grave para a Maria Inês empurrar a Catarina se ela não fez nada disso quando a Catarina roubou o marido dela?

Paula: Eu ouvi dizer que a Maria Inês empurrou a Catarina porque a Catarina a acusou de ter um caso com o Carlos! Já pensou! O Carlos tendo um caso com a primeira mulher que virou amiga da nova mulher! É melhor do que novela das 8, gente!

Maria Antônia: Não, o Paulo não é filho do Carlos. A Maria Inês teve uma – como posso dizer isso? – noite de paixão com alguém depois de descobrir que o Carlos estava largando ela para ficar com a Catarina. E como se não bastasse isso a Catarina ainda estava grávida. Eu ouvi dizer que ela e o Carlos estavam tentando engravidar, mas que não conseguiam… bem, com a Catarina e ele foi rápido. E pelo o visto foi rápido entre a Maria Inês e o tal affair dela. Fica parecendo que o problema era a combinação entre Carlos e Maria Inês, não é mesmo? Você tem filhos?

Ângela: Eu ouvi dizer que a Catarina deu um tapa na cara da Maria Inês! E aí a Maria Inês simplesmente se defendeu. Mas que babado, não é mesmo? Em plena festa junina da escola!

Sílvia: Não, não. Parece que esse tapa na cara aconteceu mesmo, mas aí o Paulinho, filho da Maria Inês empurrou a Catarina porque ele estava defendendo a mãe. Bom, eu ensino para meus filhos que não se bate em mulher sob hipótese alguma! Mas acho que se for para defender a mãe, Deus perdoa.

Susana: Agora, me diz: faz sentido para você que as duas escolheram a mesma escola para os filhos? Não tinha nenhum outro colégio para a Amanda? Ou para o Paulo? Mas elas pareciam ser amigas, sim. Eu sempre achei esquisito, mas nunca senti falsidade da parte de nenhuma das duas. Já até vi as duas passeando pelas ruas do Leblon juntas, batendo papo e rindo. Tem um tempo isso, mas eu vi. Tempos modernos, não? A Maria Inês sempre falou muito bem da Catarina. A gente sempre se encontrava no futebol dos meninos, aos sábados. Bom, ultimamente quem tem levado o Paulo é a avó porque a Maria Inês começou a fazer algum curso aos sábados. Uma boa ideia essa de fazer um curso, você não acha? Eu sempre quis aprender italiano. Olha, pensando melhor, eu até estava lá, mas prefiro não comentar sobre o que eu vi.

Jeniffer: Sim, a Maria Inês já foi casada com o marido da Catarina. E sim, elas são amigas. Ou eram. Mas aí teve a briga entre o Paulo e a Amanda e acho que as duas devem ter discutido por isso. Algumas mulheres são assim, elas agem como crianças quando algo afeta seus filhos. A Catarina não deveria ter deixado a Amanda cortar o Paulinho da festa dela ou pelo o menos não deveria ter deixado a filha entregar os convites para todos no dia da festa junina. Ou melhor, agostina, né? Esquisita essa mania da gente fazer festa junina em julho, agosto… Mas enfim, o Paulinho viu os amiguinhos ganhando convites e ficou triste porque ele não ganhou. A Maria Inês viu a dor no rosto do filho. Uma mãe defende sua cria. São capazes até de jogar alguém numa fogueira!

Cristina: A Catarina descobriu que o Carlos estava tendo um caso porque ele saía de casa aos sábados dizendo que ia jogar tênis e se esquecia de levar a raquete. Homem é muito burro mesmo, né? Eu acho que ele queria que ela descobrisse, só pode ser. Agora o que isso tem a ver com a briga da festa junina eu não sei. Ouvi dizer que a Maria Inês falou “bem feito” para a Catarina. Afinal, ela já foi a outra um dia, né?

Raquel: Eu quero saber quem foi o gênio que colocou uma fogueira no meio de uma festa com crianças pequenas. Tudo bem que temos que celebrar o clima de São João, mas com fogo? Na minha casa as crianças não podem chegar perto do fogão e fósforos e isqueiros são mantidos longe do alcance delas. Não que eu fume. O isqueiro é para acender uma vela ou qualquer coisa assim. Tudo bem, de vez em quando eu fumo um cigarro, mas não conta para ninguém, por favor. Aliás, porque você está querendo saber sobre aquele dia? Você está escrevendo alguma matéria sobre mães de classe média alta que brigam como moleques de rua?

Mariana: Eu conversei com meu terapeuta sobre o ocorrido. Acho muito bom que você esteja conversando com todos os pais para entender exatamente o que se passou porque você é alguém de fora e pode agir de forma imparcial. Eu acho que a escola está sendo muito relapsa nesse sentido. O que aconteceu foi sério! A Catarina poderia ter sofrido queimaduras graves! Esse tipo de coisa não deveria acontecer numa escola como essa, cara desse jeito. Não que isso deveria acontecer nas escolas públicas, é claro. É só que a gente espera um certo nível de civilidade quando escolhemos colocar nossos filhos num colégio tão exclusivo. Sabe quanto a gente paga de mensalidade? Uma fortuna! Como disse, eu conversei com meu terapeuta sobre o ocorrido, mas ele é freudiano, então ele não me dá opiniões. Ele só fica me perguntando como isso me faz sentir. O tempo todo! Às vezes isso me irrita. Você faz terapia?

Mônica: Sabe o que eu acho graça? Aposto que você sequer ligou para os pais, só para as mães. Bom, lembre-se que os pais também estavam presentes e que a obrigação de criar os filhos é dos dois. Ninguém pensa nos homens quando esse tipo de coisa acontece. Sempre querem culpar as mães. Você deveria escrever uma matéria sobre o machismo, isso sim.

Nina: Eu não entendi muito bem o que aconteceu até agora. Uma mãe atacou a outra? Ou foi alguma criança? Isso vai sair em algum jornal? Porque se for ter foto eu preciso retocar a minha maquiagem.

Carlos: Olha, eu prefiro não comentar nada. Peço que você respeite a privacidade da minha família.

Alberto: Eu sou amigo do Carlos há muitos anos. Nós jogamos tênis juntos aos sábados. Bom, jogávamos. Tem alguns meses que ele não joga mais. Disse que estava ocupado com coisas de trabalho. Mas por que mesmo você está me perguntando isso?

Sônia: Eu não gosto de fazer fofoca, mas todo mundo sabia que o Carlos estava tendo um caso com uma loira. A Patrícia disse que viu ele beijando uma mulher dentro de um carro. Ela não conseguiu ver o rosto dela direito, mas lembra que era loira platinada e que tinha cabelão. Parecia cabelo de atriz de cinema. E como você sabe a Catarina é morena. Agora, o que a Maria Inês tem a ver com isso eu não sei. Acho que a briga delas foi por causa da festa da Amanda mesmo. Se meu nome for sair no jornal eu preciso soletrar meus sobrenomes para você. São muitos.

Isabella: Olha, eu só decidi falar com você porque eu não me perdoaria se amanhã eu visse sua coluna com informações falsas sobre a minha amiga. Mas não aconteceu nada demais. Pode escrever isso. Nada demais mesmo. Há um tempo a Catarina ficou sabendo que o Carlos estava tendo um caso e dividiu isso com a Maria Inês e comigo. Eu sei que pode parecer estranho, ela dividir isso com a ex-mulher do marido, especialmente porque eles se conheceram quando a Maria Inês ainda era casada com o Carlos, mas as duas são amigas antes de qualquer outra coisa. A Amanda e o Paulinho se adoram, sempre brincaram juntos, desde pequenos. Mas, enfim, a Catarina estava tentando descobrir quem era a outra. E aí a mãe do João Pedro – eu me esqueço o nome dela, acho que é Susana ou Susane – foi perguntar para a Maria Inês quando que acabaria o curso dela aos sábados porque ela estava sentindo falta dela no futebol dos meninos e a Catarina ficou possessa! Ela estava convencida de que a tal amante que o Carlos se encontrava aos sábados à tarde era a Maria Inês. As duas discutiram e a Maria Inês começou a gesticular, só isso, e num movimento brusco ela empurrou a Catarina sem querer. Claro que ela deveria ter tomado mais cuidado, quer dizer, a gente estava do lado da fogueira, mas não foi de propósito. Mais tarde a Catarina soube pela Patrícia que ela tinha visto o Carlos com uma loira. Loira! A Maria Inês é mais morena do que a Catarina! Nem preciso dizer que foi tudo um mal entendido, né? A Maria Inês está fazendo um curso de francês aos sábados. Ela trabalha numa multinacional francesa, é importante para ela dominar o idioma. Só isso. Viu como não tem história nenhuma?

Elza: Olha, eu não tenho nada a esconder, mas eu não entendo o motivo da sua curiosidade. Foi uma discussão boba entre duas amigas durante uma festa junina.

Catarina: Desculpe-me, mas qual é seu interesse nisso tudo? Eu achava que meu marido já tinha deixado claro que isso é um assunto particular. Não, eu não quero contar meu lado da história porque não existe história a ser contada. E se você publicar uma só palavra sobre qualquer coisa que aconteceu eu vou processar você e seu jornalzinho de internet de quinta categoria! Meu marido e eu temos um casamento feliz. Todo casal tem seus problemas. Se você não sabe disso é porque deve ser uma encalhada.

Regina: Você já conseguiu falar com a Catarina? Vou logo avisando, ela pode ser uma fera. Você não acreditaria nas coisas que ela falou para a Maria Inês quando ela achou que ela estava tendo um caso com o Carlos. Ou de repente era por causa da história dos convites? Não tenho certeza. Teve um boato sobre bullying também. Mas eu ouvi os adjetivos que ela usou para descrever a Maria Inês e digamos que eles não eram nada educados. Mas isso não me surpreende. Ela nunca foi de boa família, sabe? Eu não vou repetir porque minha mãe me deu educação, mas você pode imaginar o que ela falou.

Bárbara: Eu sabia que um dia, mais cedo ou mais tarde, a Catarina e a Maria Inês iriam se atracar. Aquela amizade sempre foi esquisita. Eu sempre reparei na forma que a Maria Inês olhava para a Catarina. Era como uma cobra olhando para um rato, esperando o momento certo para dar o bote. Cobras comem ratos, certo?

Andressa: A briga não teve nada a ver com o Carlos. O Paulo estava praticando bullying contra a Amanda. Hoje em dia isso é muito comum, sabia? Coisa dessa geração que recebe tudo de mãos beijadas e quer tudo para ontem. Tem criança que é cruel e o Paulo é uma dessas crianças. Eu sempre achei ele esquisito. Duvido que a mãe dele seja católica. Para mim, somente católicos deveriam poder estudar no colégio. O colégio é católico, afinal. Mas como eu estava dizendo, a Amanda foi contar para a mãe que o Paulinho estava praticando bullying e a Catarina resolveu não convidá-lo para a festa da filha. Aí a Maria Inês ficou uma fera e atacou a Catarina. Ela está com o braço enfaixado até hoje. Se eu fosse ela eu tinha ido à delegacia! Mas deu para ver da onde vem o comportamento estranho do filho, né? Com uma mãe violenta dessas…

Tatiana: A Catarina caiu na fogueira durante uma discussão. Ninguém empurrou ninguém. Se teve agressão, foi somente verbal.

Rosa: Nós preferimos não comentar sobre o ocorrido. Como diretora do colégio, não vejo o porquê do interesse da mídia. Mas posso afirmar com toda segurança que não há bullying em nosso colégio.

 

Flávia: Eu não sei se a Maria Inês está tendo um caso com o Carlos, mas se ela estiver eu não os culpo. A Catarina é muito chata. Uma dona de casa entediada. Sem falar que ele era dela antes de ser da Catarina, né? Ladrão que rouba de ladrão…

Melina: A minha filha é muito amiga da Amanda. Parece que a Amanda e o Paulinho se desentenderam porque o Paulo disse para a Amanda que o pai dela – o Carlos, marido da Catarina, sabe? – gostava mais da mãe dele do que da mãe dela. O Paulo chegou para ela e disse que o Carlos iria morar com ele e com a mãe. Agora, se ele falou isso é porque ele ouviu de alguém. Criança nenhuma inventa algo assim do nada.

Larissa: Eu sou fã da sua coluna! Adoro uma boa fofoca. Fiquei arrasada de não ter ido à festa. Esses eventos são sempre um tédio e eu resolvo faltar logo o que tem um bafafá desses? É muito azar! Me conta, você soube de alguma coisa interessante?

Maria Inês: Eu não me incomodo de responder suas perguntas, mas confesso que não entendo o motivo da sua curiosidade. A Catarina comentou comigo que você foi até a casa dela e que ela disse que nada relevante tinha acontecido, certamente nada que justifique uma nota em coluna social de blog. Mas tudo bem, se você tiver alguma pergunta eu respondo. Prefiro que você ouça de mim e dela do que de terceiros, sabe? Desculpe a bagunça da casa, minha filha estava brincando de princesa hoje mais cedo e eu ainda não tive tempo de arrumar as coisas. O que foi? Ah, isso é uma peruca. É comprida, né? É que eu faço um curso de teatro aos sábado e a personagem que eu interpreto é um loira platinada. A peça se chama “Aqui se Faz, Aqui se Paga.” É sobre a lei da compensação. Eu descobri que adoro teatro.

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

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2 comentários em “As Fofocas (uma obra de ficção)

  1. Anna
    15 de agosto de 2014

    Adorei. Quero mais depois.

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  2. Larissa
    17 de agosto de 2014

    Caraaaaca!!!! Vingativa a moça, não?’! Adorei!!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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Publicado em 15 de agosto de 2014 por em Ficção Afiada.
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