Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

A Nota de Rodapé (uma obra de ficção) – Parte III (Final)

 

woman

E foi aí que eu fui pega de surpresa novamente. No final do dia, quando a maioria dos advogados já tinha saído do escritório, ele me pediu para ir até a sala dele. Quando eu entrei e fechei a porta, ele se levantou e me abraçou e me deu um beijo terno. Eu fiquei imóvel, possivelmente ainda mais surpresa do que eu havia ficado com o acontecimento do dia anterior. Afinal, a paixão pode existir no campo do inesperado, do erro, da surpresa, mas o beijo que ele estava me dando era gentil, amoroso, ponderado.

 

Ele me olhou nos olhos e me perguntou como eu estava me sentindo. Estava tudo bem? Eu me arrependia do que tinha acontecido? Ao invés de responder, meus olhos foram imediatamente para a foto da Deborah que estava na mesa dele. Ele percebeu e não se esquivou. Me disse que sabia que o que ele tinha feito era errado para com a Deborah, mas que ele não podia resistir ao que ele sentia por mim. Eu devo ter olhado para ele de forma tão confusa porque ele sorriu e disse, “Não me diga que você não reparou que eu me apaixonei por você.”

 

Marcos confessou que sempre me achou bonita e que havia usado minha

familiaridade com a língua alemã como pretexto para se aproximar de mim. Ele começou a falar sobre o que ele gostava em mim e eu percebi que ele tinha aprendido sobre a minha pessoa assim como eu aprendi sobre a dele. Ele falou que admirava minha forma destemida de encarar o mundo, meu jeito aventureiro, meu amor por esportes radicais. Disse que adorava que eu não me preocupava em rir alto, ou que eu não tinha vergonha de tirar o salto alto no final do dia porque meus pés estavam machucados. Ele disse que eu era a pessoa mais espontânea que ele já havia conhecido e que ele queria me namorar.

– Mas como namorar comigo? Você vai se casar em maio.

– Não se preocupe com isso. Vamos ficar juntos.

– Como?

– Você verá.

 

Duas semanas depois daquela conversa, todo mundo ficou sabendo que ele tinha rompido o noivado com a Deborah. Os rumores acerca da causa eram dos mais variados possíveis. Ela tinha traído ele com outro homem, ela era frígida, ela havia o enganado com uma gravidez para conseguir que ele se casasse com ela e ele descobriu a verdade. Eu ficava quieta, é claro. Sorria ao ouvir os palpites, mas não comentava nada. Até que um dia a Andrea, estagiária da área cível, anunciou durante um almoço:

– Ele tem outra!

– Mas como?

– Outra? Quem?

 

Meus colegas todos começaram a discutir quem poderia ser a tal outra. Eu não resisti e perguntei:

– Por que você acha que tem outra?

 

A essa altura eu já estava praticamente namorando com o Marcos, mas de maneira escondida, é claro. Dormia no apartamento dele quase todas as noites. Era a primeira vez que eu namorava alguém que morava sozinho e eu adorava brincar de casinha, imaginando uma vida a dois ao lado dele. Mas ninguém sabia de nada disso. Nós tomávamos cuidado para não demonstrar afeto em público. Afinal, ele tinha acabado de romper um noivado. Ele não queria magoar a Deborah e eu não queria a fama de destruidora de lares.

 

A Andrea disse que tinha ficado sabendo da outra porque ouviu o Rodrigo, advogado amigo do Marcos, comentar com a chefe dela que o Marcos estava apaixonado. Eu sabia que estava sorrindo de orelha a orelha ao ouvir isso. Mas meu sorriso durou pouco. Andrea continuou:

 

– Parece que os amigos dele estão preocupados que o Marcos está fazendo uma tremenda besteira. Essa nova mulher não chega aos pés da Deborah, é uma aproveitadora que está interessada no dinheiro do Marcos.

 

Meus colegas começaram a especular sobre o perfil da nova mulher. Eu fiquei chocada com aquela fofoca, mas tentei me consolar, ponderando que os amigos dele achavam isso porque não me conheciam, não tinham conversado comigo. Assim que eles soubessem que a nova namorada era eu isso tudo iria passar. As pessoas me reconheceriam como par do Marcos. Não, eu não tinha o pedigree da Deborah, mas isso não teria importância. Estávamos no século XXI, afinal, e o Marcos não era o tipo de pessoa que daria bola para minha família ser tradicional ou não. Se ele quisesse uma mulher assim, ele teria continuado com a Deborah.

 

E, realmente, as pessoas me aceitaram, embora com desconfiança e claramente sem levar muita fé no nosso relacionamento. Um mês depois daquele almoço, nós começamos a namorar abertamente e, apesar de negarmos qualquer envolvimento um com o outro enquanto o Marcos ainda estava com a Deborah, ninguém acreditou. Eu percebia que as pessoas me olhavam de forma diferente, com uma mistura de curiosidade, respeito e desconfiança. Muitos não achavam que eu era boa o suficiente para o Marcos, mas nenhum ousava questionar o bom senso daquele homem que era um exemplo para tantos. Se o Marcos via algo em mim, eu devia ser merecedora desse amor.

 

Os primeiros cinco meses do nosso namoro foram incríveis. O Marcos era o namorado perfeito. Romântico, atencioso, inteligente, ele realmente não parecia ter defeitos. Ele me levava para jantar em restaurantes elegantes, onde sempre tinha uma mesa esperando por nós mesmo quando a fila de espera rodava o quarteirão. Ele não parecia se importar com o fato de eu não saber pronunciar certas palavras no cardápio ou não entender nada sobre vinhos. Eu me preocupava em parecer provinciana porque ele era tão culto e viajado, mas ele parecia adorar me contar sobre os lugares que ele conhecia e conversar sobre viagens que nós faríamos durante minhas férias da faculdade. Eu tinha tanto fascínio pelo estilo de vida dele que acho que isso refletia na minha face e eu devia estar sempre iluminada, olhando para ele com adoração.

 

Mas no dia 14 de maio tudo mudou.

 

Ele me ligou, pedindo para conversar e a voz dele estava tão diferente que eu tive que me controlar para não insistir para que ele falasse o que tinha para dizer pelo telefone mesmo. Ele foi de carro até a minha casa e assim que eu entrei no carro ele foi direto ao ponto:

– Não posso mais namorar com você.

– Por que?

– Eu não posso mais. Somos muito diferentes. Desculpa, Clara, eu não queria magoar você.

 

Eu gostaria de contar que eu fui forte e segurei as lágrimas, mas a verdade é que eu chorei descontroladamente. Insisti para ele me explicar o que eu tinha feito de errado, falando que nada disso fazia sentido, nós éramos tão felizes, devia haver alguma razão para isso. Ele repetia que tinha muito carinho por mim, mas que não poderíamos continuar juntos. Foi aí que eu perguntei:

– Você tem outra?

 

Toda mulher apaixonada sabe que quando realmente adoramos alguém, nós percebemos cada micro-expressão no rosto da pessoa. Nada passa despercebido quando se ama alguém do jeito que eu amava o Marcos porque o vício que sentimos pela pessoa faz com que tenhamos a vontade de absorver tudo que vem dela. E foi por isso que eu percebi ele piscar os olhos quando fiz essa pergunta. E eu sabia que a resposta era sim.

 

– Quem é ela? Eu mereço saber.

 

Milagrosamente, consegui enxugar as lágrimas e perguntar isso sem balbuciar. Expliquei que eu tinha o direito de saber, que nós trabalhávamos no mesmo escritório e que eu ficaria sabendo de qualquer forma e que se ele me respeitava como tinha dito, ele me contaria agora para eu ao menos estar preparada para as inevitáveis fofocas.

 

Mas nada poderia ter me preparado para o soco que eu levei no estômago quando ele me respondeu. Nunca levei um soco físico, mas não pode doer mais do que a dor de ouvir aquelas palavras. Dor física, dor latente.

– É a Deborah.

 

E foi assim que eu soube, de primeira mão, que o príncipe Marcos tinha voltado para a princesa Deborah.

 

Chorei, fiquei sem comer, me recusei a sair do quarto por dias. Pensei em pedir demissão do escritório mas a verdade patética é que eu queria uma desculpa para ver o Marcos. Parte de mim achava que aquilo não poderia ser verdade. Como ele voltou com ela depois daqueles meses felizes que passamos juntos? E por que? Por que?

 

Voltei a trabalhar depois de quase uma semana em depressão. Eu falei para minha chefe que tinha pego uma gripe forte, mas ela – e todos do escritório – pareciam saber a verdade. Até agora, ninguém teve a coragem (ou talvez o interesse) de conversar comigo sobre o término. Mas já ouvi as pessoas falarem sobre a volta do Marcos e da Deborah e a foto dela voltou para a mesa dele, como se nunca tivesse saído de lá.

 

E eu, que depois daquele primeiro beijo tinha achado que eu seria apenas um parênteses na vida do Marcos e que depois tinha me permitido acreditar que nós éramos feitos um para o outro, percebi que eu seria apenas uma nota rodapé na história do Marcos, ou talvez nem mesmo isso.

(Fim)

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

***Se você possui os direitos autorais sobre qualquer imagem e deseja que elas sejam removidas deste blog, por favor entre em contato.***

 

 

 

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Um comentário em “A Nota de Rodapé (uma obra de ficção) – Parte III (Final)

  1. Ju
    19 de agosto de 2014

    Gostei de ler!!

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Publicado em 30 de julho de 2014 por em Ficção Afiada.
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