Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

A Nota de Rodapé (uma obra de ficção) – Parte II

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(Uma obra de ficção – Parte II) 

 

Eu comecei a estagiar no escritório quando o Marcos tinha acabado de se formar. Ele já era advogado – tinha passado na OAB com notas excelente, é claro – e já usava a aliança na mão direita. E sim, eu já tinha visto a foto da Deborah na mesa dele e já tinha ouvido a história dos dois diversas vezes. O casamento deles estava marcado para maio, ou seja, em nove curtos meses ele seria um homem casado.

 

Tenho certeza de que as pessoas devem contar que eu persegui o Marcos de maneira incansável, mas isso não é verdade. Sim, eu olhava para ele e via um homem bonito e charmoso, mas também via um homem comprometido. E nunca tinha passado pela minha cabeça me relacionar com um homem que pertencia a outra mulher.

 

Mas o destino quis que fosse diferente.

 

O escritório tinha sido contratado por uma empresa alemã para cuidar de uma fusão com outra empresa, suíça. Eu estudei a vida inteira no colégio alemão e era a única pessoa que conseguia entender o que os alemães falavam entre si durante os conference calls. Sim, a língua usada nas reuniões era o inglês, mas as vezes eles começam a falar entre si e o Marcos queria saber o que eles estavam falando e, por isso, me chamou para participar das tratativas. Acabou que eles falavam rápido demais e eu só conseguia entender algumas palavras, mas o Marcos continuou pedindo minha ajuda e eu comecei a ficar no escritório trabalhando no projeto. Eu estava felicíssima, é claro. Era minha chance de mostrar meu trabalho e de participar de um grande deal.

 

Durante muito tempo, eu achei que meu relacionamento com o Marcos tinha sido fadado porque, em dezembro, o Rio de Janeiro foi atingido por uma daquelas chuvas terríveis que acabam virando enchentes. E foi justamente numa noite onde Marcos e eu estávamos sozinhos no escritório. Quando terminamos o memorando do projeto e descemos até a portaria do prédio, percebemos a chuva calamitosa e, resignados em ficar por lá por mais algumas horas, subimos de volta para o andar do escritório.

 

Aqui preciso fazer uma pausa para explicar que nós já havíamos nos tornados “colegas amigos”. Não tem como trabalhar lado a lado por tanto tempo e não aprender mais sobre a pessoa. Então eu sabia que ele gostava de carnes e detestava comida japonesa. Sabia que ele adorava o Direito, mas não concordava com a forma do pai gerenciar o escritório. Já tinha aprendido que ele adorava andar de bicicleta e que ele pretendia fazer o caminho de Santiago de Compostela no próximo verão. E também percebi que ele não gostava de participar dos preparativos para o casamento. A Deborah estava cursando o último ano da faculdade de pedagogia e ligava para o Marcos incessantemente, querendo saber se ele preferia um sousplat cobre ou dourado. “Eu nem vejo diferença entre os dois,” ele desabafava. Mas ele sempre falou da Deborah com muito carinho, muito afeto. Eu achava que eles eram o casal perfeito. E, sim, eu percebia como eu o admirava e que eu provavelmente tinha desenvolvido uma quedinha por ele, mas achava tudo muito inocente e despretensioso.

 

Acreditem: eu fui pega de surpresa quando, naquela noite da chuva, ele me beijou. O beijo dele me deixou flutuando, intoxicada, felicíssima, mas também me chocou. Eu não esperava isso. Achava que o Marcos me via como uma colega de trabalho. A noiva dele parecia uma boneca de porcelana. Como que alguém apaixonado pela Deborah poderia olhar para alguém como eu? Nunca me achei feia, mas minha beleza é muito diferente da Deborah. Meus lábios são carnudos, minha pele bronzeada, meus cabelos e olhos muito escuros, meu nariz um pouco grande, meu queixo pronunciado. Na escola, diziam que eu tinha cara de cavalo e, tudo bem, eu amadureci e minha beleza floresceu desde então, mas eu ainda parecia um rascunho e a Deborah já era a obra final.

 

Mas mesmo assim, o Marcos me quis. Eu me rendi a ele naquela noite mesmo, na mesa da sala dele, um clichê terrível, eu sei. Mas a paixão que existia dentro de mim, a paixão que eu não havia me permitido reconhecer, tinha sido libertada e não tinha como me segurar. Eu era dele. É claro que eu era dele.

 

Mas ele não era meu. Eu também sabia disso. Apesar da noite ter sido uma verdadeira orgia sensorial, eu também sabia que eu tinha sido um erro que ele cometeu. Cheguei no escritório no dia seguinte sem conseguir olhar nos olhos dele. Minhas mãos tremiam quando ele passava pela minha baia, meu estômago ruminava com uma mistura de êxtase e vergonha pela memória da noite anterior. Porque eu tinha certeza que eu seria apenas um parênteses na vida dele, um soluço.

 

(Continua…)

 

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

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Informação

Publicado em 23 de julho de 2014 por em Ficção Afiada.
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