Afiadas

Cinco amigas cheias de criatividade e pontos de vista diferentes.

A Nota de Rodapé (uma obra de ficção) – Parte I

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Muitos diriam que a culpa é toda minha. Deve pessoas falando isso agora mesmo, levantando pontos como karma e retribuição divina. Basta eu chegar perto de uma mesa, seja no trabalho ou em algum restaurante, que os olhares ficam aflitos, os olhos das pessoas começam a dançar entre o interlocutor e a minha pessoa, alertando-o da minha presença. O tom da conversa muda, os sorrisos ficam encabulados e eu começo a fingir que não percebi que eles estavam falando do meu predicamento e eles aceitam essa simulação, visivelmente aliviados.

 

E de repente é minha culpa mesmo. O que eu queria que as pessoas entendessem é que isso não torna a dor menos marcante, menos aguda. Isso não muda meu sofrimento. E – talvez aqui me chamem de tola, além de merecedora da dor – não a tornou menos inacreditável.

 

O machismo todo se revela – de maneira nada surpreendente, é claro – como a cereja do bolo. O último chute na pessoa que já está esparramada no chão depois de tanto apanhar. Porque ninguém culpa o homem, isso eu posso garantir. Aposto que ele poderia, até mesmo, trocar e destrocar mais umas duas ou três vezes e mesmo assim a culpa continuaria sendo minha e talvez da Deborah também. Mas nunca do Marcos.

 

Para quem acredita em vidas passadas e também que a vida que nós levamos agora reflete nossas vidas anteriores, o Marcos foi um grande mártir que deve ter salvado centenas de crianças inocentes da maneira mais altruísta possível e com total anonimato para nem mesmo a fama ter servido como recompensa. Só isso explicaria o fato dele ter nascido lindo, inteligente, rico e tão amado pelos pais. Filho do fundador do escritório, Marcos sempre quis ser advogado e trabalhar no negócio da família. Na escola, sempre foi bom aluno sem deixar de manter uma vida social ativa e saudável. Sempre foi popular, amado pelos amigos e, obviamente, adorado pelas garotas. Era o tipo de homem que despertava inveja branca nos outros homens – eles queriam ser o Marcos, mas também reconheciam que jamais o seriam – e o desejo nas mulheres.

 

Ele tinha seus namoricos, seus flertes, seu interesses, mas a primeira namorada séria do Marcos foi a Deborah. Delicada, feminina, com gestos medidos e tom de voz que mais parecia um sussurro, Deborah era, é claro, a menina mais bonita da faculdade. Mas era uma beleza clássica. Ela não tomava sol, o que deixava sua pele clara ainda mais translúcida, dando a ela uma qualidade quase etérea. O tom do seu cabelo – loiro, é evidente – era um mel bem clarinho, diferente dos loiros platinados das femmes fatales. E como qualquer boa candidata a primeira dama, ela era magra, magérrima. E sabia se vestir muito, mas muito, bem.

 

Ninguém ficou surpreso quando eles começaram a namorar sério. As outras mulheres ficaram decepcionadas, é claro, mas rapidamente se conformaram. Marcos já estava no final do último período do curso de Direito na tradicional faculdade católica e, em breve, iria precisar constituir uma família mesmo. É claro que alguém como o Marcos iria casar com alguém como a Deborah. O namoro deles tinha mais seguidores do que o twitter de alguma celebridade muito famosa, dessas que sempre aparecem nas revistas ligadas a algum escândalo divertidíssimo. As pessoas acompanharam cada evolução de maneira tão assídua que só faltava a pipoca para elas se sentirem verdadeiramente rendidas ao entretenimento. Era só algum marco ser atingido – ele a levar para conhecer os pais dele, ou a primeira viagem dos dois juntos ou qualquer coisa assim – que todos começavam a comentar, especulando sobre quando viria o inevitável pedido de casamento.

E depois de um ano e meio, veio o tal pedido. Aí mesmo que o relacionamento deles virou novela. As pessoas ficaram tentando adivinhar como seria o vestido dela, qual seria a cor do casamento e como seria o arranjo de flores do buquê. As melhores amigas da Deborah ficaram, ansiosamente, esperando o convite para serem madrinhas e quando o convite veio a felicidade delas parecia equivalente a de ter sido sorteada na Mega Sena.

 

E aí veio a bruxa má. Eu.

 

(Continua…)

 

Escrito e publicado por Fernanda Cecília

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2 comentários em “A Nota de Rodapé (uma obra de ficção) – Parte I

  1. asafiadas
    22 de julho de 2014

    Não conheci a Deb., mas já achei essa menina chata… me identifiquei com o cabelo chato dela, é como o meu está agora… Ainda bem que existem as “bruxas”.
    Didi Vasconcelos

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  2. Fernanda Cecília
    29 de julho de 2014

    Então, a Deborah não existe na vida real, mas eu tb acho ela super boring, rsrs.

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Publicado em 18 de julho de 2014 por em Ficção Afiada.
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